Gabriel Merchak.
Uma história envolvente sobre o mistério curioso que envolve um antigo costume peculiar de uma pequena cidade, morada de uma jovem bisbilhoteira e cercada por terrores que se escondem nas vielas de pedra antiga, trilhas obscuras e grutas murmurantes. Que serão desvendados ou a devorarão nos próximos capítulos.
aviso: conto de terror com conteúdo sensível como: sangue, tortura e suicídio.
[The English version will be available soon.]

Eu moro numa cidadezinha interiorana, como você bem sabe. Aliás, de forma muito irritante, vive me perturbando com isso. E por conta dessa zoação constante, eu nunca falei muito sobre aqui.
Até porque, para mim, nada seria suficientemente interessante — e se eu ousasse lançar a você algo como: “o cachorro da dona Elvira sumiu… gerou a maior fofoca na cidade”, além de sair como tonta e fofoqueira, sem dúvidas, você iria me perturbar com isso por pelo menos 3 meses. Assim como fez quando contei o causo do fusquinha — ainda não te perdoei por isso, seu INSUPORTÁVEL. Mas tudo isso mudou logo quando postei A foto no fotolog, né?
Saí de “emo sem noção do interior” para “jovens bruxas super cult”. Você não tem o mínimo de vergonha na cara! Sempre me infernizou tanto com isso e agora quer saber tudo da minha cidadezinha… Mas depois disso, percebi que aqui pode ser muito mais interessante do que parece.
Acho que o costume e rotina nos dessensibilizam para certas coisas únicas que nos cercam. E como sou uma alma boa e iluminada, vou te explicar tudo o que sei sobre aqui, e assim, rezo para que você me deixe em paz com isso, garoto.
Na foto, você se fixou muito nas pessoas fantasiadas atrás de mim. Sinceramente, fiquei até ofendida por você nem ter elogiado meu cabelo novo. Você sabe o quão difícil é achar uma tinta vermelho cereja por aqui!? Mas enfim… toda a algazarra que aparece no fundo da foto, emoldurando as laterais do meu belíssimo rosto hehehe é o carnaval da minha cidade.
Sim, é estranho; sim, parece muito com o halloween, mas… se você ousar dizer isso, eu vou aparecer debaixo da tua cama e rancar teu pé. E sim, tem uma explicação; a gente não é uma cidade de 3.332 góticos que se viciaram em fazer cosplay antecipado de EUA.
A verdade é que o carnaval da minha cidadezinha surgiu na época em que ela era um vilarejo ainda mais isolado que hoje. E todos os rituais de comemoração que você viu nas fotos surgiram logo no primeiro carnaval, como uma forma de tentar apaziguar todo o horror que se abateu na cidade justamente em sua primeira grande comemoração.
Tudo teve início no ano de 1889. Fazia 23 anos desda inauguração do primeiro assentamento, marcando a criação da cidade. A prosperidade era visível e finalmente, depois de anos em caminhada trôpega, o sonho dos fundadores parecia se materializar — então era necessário comemorar… já que, para chegar onde estavam, a jornada não foi simples.
A peregrinação até aqui e a posterior criação da cidade surgiram a partir da ânsia de um pequeno grupo de brasileiros e um ou outro europeu com fome de luxúria. Eram comerciantes já estabelecidos na cidade e outros imigrantes chegados ao Brasil pela querência da coroa, com objetivo incentivar a modernização e desenvolvimento do comércio.
No entanto, esse grupo almejava mais: queriam usar das terras brasileiras para construir seu sonho impossível. Então, junto a um falido empresário, seu líder delirante, eles planejaram sua fuga para um refúgio onde esse desejo se tornaria tangível.
O grande idealizador desse projeto, Ernesto Prestes, ao longe poderia parecer só mais um dos bocós com delírio de grandeza, obcecado em viver a utopia burguesa, mas diferente deles… ele tinha uma obstinação imparável. Seu discurso era convincente: palavras sedutoras para ouvidos gananciosos e planos que, para mentes não muito funcionais, pareciam bem razoáveis.
Então, depois de algumas reuniões regadas a vinho e guardadas por lamparinas baixas, todos concordaram em seguir seu novo líder na caçada quase pecaminosa pela vida que eles tanto almejavam — serem reis do seu pequeno mundinho.
Eles estavam deslumbrados pelas promessas feitas pelo já autodeclarado prefeito e arrastaram consigo tudo o que tinham: todo dinheiro que puderam sonegar, desviar e roubar; suas mulheres e crianças; e qualquer coisa que ajudasse a erguer o sonho daqueles pequenos aristocratas de faz-de-conta.
Seu ouro, seus luxos, móveis e roupas — carroças cheias e baús tão pesados que quase partiam o lombo das mulas, enquanto tropicavam cansadamente sobre pedras cobertas por folhas podres no chão.
Isso tudo para alcançar apenas mais uma terra esquecida… enredada dentro do território secular de uma baronesa do antigo império. Seus caminhos e casarões, engolidos pelo tempo e corroídos pela mata, junto a seu legado. Os morros de picos altos e barrancos lodosos, antes acostumados com o som dos ventos, novamente seriam maculados pelas vozes de homens tolos.
Mas a escolha dessas terras não foi à toa. O pretensioso empresário já sabia muito bem onde levaria sua comitiva antes mesmo da primeira reunião — era sua imaculada terra prometida. Ele soube das terras que se tornaram nossa cidade a partir de fontes privilegiadas que cochichavam sobre riquezas grandiosas escondidas nas profundezas da terra, no sopé do grande marco secreto.
Era simplesmente o lugar perfeito. Próximo à serra do mar, semelhante aos belos montes ingleses, serviria perfeitamente para construir sua utopia — um lugar protegido por deus, murado pela neblina e imbuído de valor.
Sabendo disso, sua mente entrou num turbilhão de excitação, querendo desesperadamente ir para as montanhas e se sentir acima do mundo. Assim, foi pesquisando ao longo dos anos.
Por onde andavam os mapas? Quais eram as rotas secretas? Onde estava a trilha para alcançar seu éden?
Dentro dessa longa missão, ele foi juntando os mapas despedaçados, cartas misteriosas e pequenos recados escondidos em panos velhos, cada um carregando alguma pista que lhe mostrasse um caminho. Mas é óbvio que nada disso seria possível sem… dinheiro.
Então, em meio a suas pesquisas e viagens, sempre foi movimentando seus esquemas e criou uma grande rede dentro do mercado ilegal. Conseguia favores, lavava dinheiro, contrabandeava escravos para a europa e cumpria quaisquer outros trabalhos sórdidos que lhe garantissem mais grana e favores em troca.
Dessa forma, quando finalmente pôs as mãos nas partes faltantes dos mapas, ele já tinha um planejamento completo: os homens que recrutaria, um plano de “negócios” muito lucrativo, a rota de fuga e tantos esqueletos no armário que seriam mais que suficientes para cobrir seus rastros por um bom tempo.
Tudo seguiu como planejado. Juntaram tudo o que puderam e, na data marcada, eles zarparam na calada da noite rumo aos ermos do estado, desbravando as estradas embrenhadas nas raízes da mata, em procura desesperada pelo grande marco prometido nas cartas.
Só que essas cartas se mostraram muito mais traiçoeiras do que Ernesto previu.
Foram meses de caminhada, cheios de descrença e intrigas, as quais povoavam os curtos acampamentos entre as infinitas trilhas como fantasmas zombeteiros. Porém, depois de sangrar os pés, perder baús e mulas, enterrar alguns dos seus ao longo da jornada e queimar seus machucados com as lágrimas da madrugada, eles finalmente tiveram seu prêmio.
E essa tão aguardada vitória chegou quando o “prefeito”, engolido pelo desespero, suplicou em meio ao breu da mata — a quem o estivesse ouvindo — que o levasse ao seu grande desejo.
Assim, no dia seguinte, resignados a continuar perseguindo sua sina, eles levantaram novamente suas tralhas e se arrastaram para suas mulas já esqueléticas.
Vagarosos e descrentes seguiram, a contragosto, seu líder, mas dessa vez com uma surpresa. No fim do dia, quando a esperança se esvaía mais uma vez junto dos raios de sol, eles desembocaram em uma visão que se faz impressionante na cidade até hoje: O Marco. Finalmente eles o haviam encontrado. Em meio a uma enorme clareira, os últimos raios de sol mostravam a todos o que eles achavam que seria impossível.
Os mapas eram traiçoeiros, mas não mentiam. Por fim, depois de tanto insistir, esses homens foram agraciados com a benção do que lhes fora prometido — A Catedral.
“Deus está conosco!”
Entoavam em êxtase enquanto encaravam a imagem de uma bela santa em mantos roxos, intacta sobre as vinhas que se espalham por entre as pedras que sustentavam o grande vitral emoldurado pelo frontão imponente da fortaleza. Era a manifestação divina erguida como uma entidade sólida em meio à floresta hostil.
Desde aquele dia, a Santa se tornou a padroeira sem nome de nossa cidade, a operadora de milagres silenciosos, a grande benfeitora — Santa Ignota, livre do julgamento de deus.
E, aos pés dessa antiga catedral, eles se assentaram. Os primeiros dias foram descritos como temerosos e opressivos, mas a presença da Santa os fazia perseverar, e em pouco tempo, eles levantaram a primeira grande casa, seguindo as orientações do “sábio” Ernesto Prestes.
Depois do primeiro assentamento ter sido construído, deu-se início à fase de expansão, e ao longo das semanas, os homens foram desbravando as matas e descobrindo outras construções próximas à catedral, antes escondidas pelos galhos retorcidos e pela neblina densa. Começaram, assim, a criar descampados, planejar os arrendamentos, derrubar as antigas árvores e carpir a terra. Em poucos meses, criaram um descampado em volta da catedral, ocuparam as antigas construções e começaram a fundar novas — a cidade estava começando a ser erguida.
A partir daí, a expansão da cidade apenas escalou. Casarões cada vez mais pomposos, praças ainda mais floridas e calçadas iluminadas. Os donos da cidade realmente fizeram e gastaram muito para financiar a construção de seu reduto. Mas isso veio com um preço… os pobres.
Porque o trabalho de levantar a cidade jamais seria feito pelas mãos dos endinheirados. Então, para a grande infelicidade deles, a plebe teve que comparecer.
Os rumores foram se alimentando a partir dos fuxicos feitos em cima de alguns poucos telegramas enviados para a capital e cidades vizinhas, saídos do meio do nada, buscando funcionários para cumprir funções às quais os “aristocratas” jamais se sujeitariam por mais de alguns meses.
A boa e velha fofoca sempre funcionando para espalhar informações.
Quando uma contratação era estabelecida por um dos fundadores, o recrutamento começava. Era enviada ao contratado uma carta com as instruções para encontrar um informante e receber dele o caminho para a cidade, junto a alguns suprimentos para a viagem. Assim que tudo estava pronto, uma montaria era fornecida e o novo trabalhador podia rumar ao seu novo “lar”.
Após alguns sumiços repentinos de funcionários de dentro das casas grandes da capital, não demorou muito, e logo o rumor de um paraíso burguês se espalhou pelos ouvidos de certas pessoas abastadas, e de forma selecionada, algumas delas ganharam um mapa para alcançar a cidade.
E, em menos de 15 anos, a cidade já contava com 113 trabalhadores, incluindo crianças, que serviam de forma obediente aos mais de 144 pequenos burgueses. Cuidavam de seus bebês, limpavam suas casas, as ruas, além de trabalharem exaustivamente na fábrica da cidade baixa.
A população foi se expandindo anualmente. Mesmo entre doenças, mortes, vindas e idas, a cidade foi crescendo e, no ano em que o primeiro carnaval ocorreu, contava com 667 habitantes, entre serventes e senhores. E, com uma população desse tamanho, tornou-se completamente possível que essa cidade realizasse um grande carnaval, digno de satisfazer seus egos.
Tudo era perfeito.
Ruas limpas, casas deslumbrantes, praças bucólicas. Tudo isso protegido pela força divina da Santa e pela fé desses bons homens. Uma cidade ideal, comandada por homens firmes, que cuidavam de suas mulheres, nutriam seus filhos e perpetuavam valores de bem em meio ao caos do mundo. Era assim que cada um dos moradores da parte alta da cidade via uns aos outros: altruístas, resignados pelo sacrifício de criar uma realidade melhor para seus descendentes, longe da podridão da cidade grande e recompensados com grande prosperidade.
Assim, nada mais justo do que, depois de 23 longos anos de “trabalho duro”, comemorar o desenvolvimento recorde da cidade. Homens saídos do nada, que transformaram montes lamacentos naquele sonho em vida. E ainda contando com valores de civilidade… funcionários remunerados no estilo moderno e europeu, encantadoras ruas largas preenchidas com canteiros de inúmeras flores — tudo no maior estilo neoclássico.
Seu ápice era a grande praça no centro da cidade, onde as belas mulheres de altíssima classe posavam junto de seus maridos nos passeios da tarde enquanto apreciavam o aroma das flores e ignoravam o rançoso cheiro do apodrecer do adubo, feito a partir de ouro roubado e sangue. Porém, nada disso era relevante. O que se via era o verdadeiro trunfo — as aparências, criadas milimetricamente por aqueles homens de “bem”.
Então, para eles, era imprescindível festejar.
O Brasil finalmente estava a caminho de se tornar uma república moderna e, acima de tudo, os homens se faziam empolvorosos pela saudade da boemia. Pequenos bailes ou aniversários não eram suficientes, e os jovens também queriam se divertir com moças de classe… diferentes daquelas que circulavam sozinhas nas esquinas da cidade baixa.
Os ricos estavam sedentos por uma festança escandalizante, de invejar qualquer rua de Montmartre, e foi isso que eles conseguiram — mas de uma forma que nunca imaginariam.
Foi assim que, desde o dia primeiro de janeiro, todos os senhores e senhoras começaram a colocar em prática os planejamentos decididos no ano anterior. Iniciando as ordens para a montagem das barraquinhas e a decoração da praça central, que seria o foco da festa.
A praça foi construída em volta de uma antiga oliveira, provavelmente plantada na época da baronesa, e tinha uma visão privilegiada da grande catedral; então foi fácil escolher o lugar para sediar a festa.
Festejar enquanto observavam, ao longe, o sol se pôr atrás da catedral, banhando seus vitrais rosáceos com sua luz alaranjada — seria o ápice da festa e mostraria o quão próspera a cidade era. A beleza da catedral inspirava os egos dos moradores da cidade alta. Era uma construção enorme, imponente, tão magnífica que tomava a atenção para si, mesmo entre os picos altos das montanhas.
Talvez fosse estranha a existência de algo tão grande num ermo isolado como aquele, mas sua presença era tão sedutora, ofuscante, divina… que não sobrava espaço para questionamentos, apenas admiração e devoção a algo tão sublime.
Os únicos que, às vezes, se questionavam sobre o por que a catedral descansava isolada naquelas montanhas eram os moradores do bairro industrial. Pessoas que se questionavam sobre quem era aquela santa tão venerada por seus patrões, enquanto subiam as escadarias do vale para chegar aos casarões, antes mesmo de o sol nascer.
No entanto, em meio a uma agitação quase entorpecente, nenhum dos mistérios da pacata cidade parecia importar — ainda mais aqueles soterrados em um passado tão distante. A festa era como uma febre coletiva, ocultando qualquer outro sintoma da cidade já séptica.
Estavam todos ansiosos. Até mesmo os pobres ansiavam, para o que sobrariam a eles aproveitar depois da diversão de seus patrões. Mas não eram todos. As senhoras, sabidas nas coisas ocultas, sentiam que algo daria errado, os ventos assobiavam em desespero. No entanto, não havia tempo a perder com conversas agourentas de velhas que nem conseguiam subir os escadões — era preciso trabalhar.
Na cidade alta, os donos mandavam e desmandavam. Exigiam mais bandeirolas, queriam os arbustos que emolduravam as romanzeiras perfeitamente aparados, ornamentos vivos espalhados pelas ruas. Obrigavam suas costureiras a trabalhar noite e dia — decorando suas máscaras, correndo as fantasias com linha e bordando infinitos metros de renda nas cortinas que enfeitariam as barraquinhas — mesmo que seus dedos já estivessem grossos de tantos curativos.
Tudo precisava estar perfeito até o dia do carnaval.
Cada milímetro daquela festa já havia sido decidido no jantar de natal, feito no grande salão da prefeitura. Onde Ernesto Prestes, nosso fundador, fez a votação e redigiu o documento que, na mesma noite, foi assinado por todos os homens presentes, selando o compromisso de cada um com a comemoração que viria.
Fazia mais de dois meses que todos sonhavam diariamente com a grande comemoração que fariam, usufruindo completamente de todos os luxos possíveis, no seu ápice, por um dia inteiro.
Queriam se sentir como os nobres que viviam no palácio de versailles; passar por pelas ruas largas, os edifícios decorados, por pequenos praceados ingleses em meio aos belos sobrados impecavelmente construídos para aquele cenário perfeitamente artificial de uma europa falsa — e se sentirem especiais.
Chegando fevereiro, a comemoração estava impecavelmente organizada, e todos estavam muito ansiosos para aproveitar tudo o que a festividade poderia proporcionar. Assim que o dia chegou, logo de madrugada, os funcionários passaram pelos corredores dos bosques, que percorriam o caminho do vale até as ruas da cidade alta, carregando todo o necessário e foram organizar a praça para que seus chefes já acordassem com diversão e na energia do carnaval.
Os ciganos circenses, convidados pelas três dondocas francesas, abriram suas barracas para entreter o povo.
As senhoras de classe levavam seus doces para os quiosques já aprontados, enquanto o prefeito trazia, em sua carruagem, os belos instrumentos para a banda. Não eram nem oito da manhã e as pessoas já passeavam pelas ruas animadas, esperando a festa realmente começar.
Meio dia, e finalmente tudo estava em seu lugar. O palco elevado em volta do canteiro onde repousa até hoje a velha oliveira, as bandeirolas penduradas por todo o telhado do grande gazebo da praça central. As barraquinhas já abastecidas, e as crianças correndo de suas babás à procura de mais diversão.
Depois de muita folia, bebida, música e diversão, a noite finalmente chegou, e com isso, os cidadãos entraram num consenso: encerrar a festa.
Então, foram guardar os principais itens, como os instrumentos, que eram caros, os panos bordados e outros objetos, que agora repousam no museu da cidade. O objetivo era que nada ficasse ao relento da noite e muito menos ao alcance dos ciganos, aqueles em quem nenhum dos moradores da cidade, nem mesmo os pobres, confiava de forma alguma. Já que eram — ladrões, apóstatas, bêbados e pagãos — as vozes da hipocrisia berravam em um silêncio ensurdecedor pelas vielas.
Os donos dos estabelecimentos fecharam suas lojas; depois, os empregados levaram para os fundos os quitutes que sobraram, bordados finos e artesanatos que as madames vendiam para passar o tempo. Então, quando tudo estava seguro e longe das mãos de qualquer malfeitor, todos se recolheram às suas casas, inclusive a criadagem, que sumiu na neblina do vale, engolidos pelo som das cascatas.
Os únicos que ficaram foram o dono da barbearia, o chaveiro, o médico e mais alguns homens meio bêbados. Pegaram o antigo carroção, duas mulas bem fortes e rápidas, e ordenaram aos últimos criados — aqueles que não foram rápidos o suficiente para descer o vale — que carregassem os itens para dentro, com muito cuidado, especialmente os instrumentos russos fornecidos pelo prefeito, para que seguissem o mais rápido possível até o armazém da prefeitura.
O armazém se localizava no limite sudeste da cidade, dentro da vasta plantação. Ficava entre a última rua, que descia para a mata, e uma das grandes torres de observação.
Era cercado por grandes portões e grades altas, criadas a partir de pedaços dos gradis quebrados nos fundos da catedral, remendados com novas ferragens. Um amálgama deformado e impuro, mas de beleza incontestável — um prelúdio do que se seguiria naquela noite. Hastes de metal compridas, delgadas e cheias de rocailles, que ostentavam um passado muito mais antigo do que qualquer uma das coisas que protegiam.
Foram nesses portões onde o terror que permeia o carnaval da minha cidadezinha teve início.
Um corpo, mas não qualquer corpo; não eram apenas facadas de briga, tiro no peito por um roubo que deu errado ou um suicida enforcado, convencido pela coragem da bebida.
Era algo muito, muito pior…
Aquela atrocidade maligna, de sadismo distinto, foi capaz de perturbar a mente de todos os olhos que a avistaram. Aquele trabalho nefasto parecia um ritual devocional, feito pelas próprias mãos da besta, feito para invocar O Desespero e O Medo. Era a carne de um homem que foi deflorada e maculada, não sobrava ali um único sopro de paz.
Aquele corpo não estava apenas morto — estava transformado. Uma escultura de carne e osso, meticulosamente desmontada e costurada em formas que desafiavam a lógica.
Os homens tolos e bêbados não sabiam o que estavam prestes a presenciar. No entanto, as mulas tentaram avisá-los e brecaram subitamente, o instinto as coordenavam muito mais do que as rédeas apertadas por Percival, o barbeiro.
Ele tentou fazê-las continuar à chicotadas, mas as cabeças dos animais estavam petrificadas em direção ao escuro, cascos afundados na terra lodosa e músculos rijos como mármore. A dor era menos ameaçadora do que é que fosse se escondendo no breu à frente.
Tiveram que descer do carroção e arrastar as caixas até o grande portão.
Foi nesse instante que a luz crepitante das lamparinas trouxe a eles tal presente atroz, uma cena tão nefasta que os fez entender imediatamente o porquê de conseguirem ouvir o coração pulsante das mulas em meio aos seus relinchos e coices aflitos.
Um corpo, na verdade, um mosaico demoníaco rearranjado de formas impossíveis. Todos os membros estavam perfeitamente abertos ao meio, invertidos. Ossos brancos e límpidos agarrados por tendões pulsantes prestes a romper. Olhos atentos e histéricos escaneavam toda a carcaça vil, mas era impossível achar qualquer traço humano.
Não havia sangue jorrando. Todas as artérias se mantinham intactas, órgãos intocados e vibrando lentamente — era bizarro, impossível, grotesco.
A pulsação dissonante mostrava que algo se agitava no interior daquela prisão nefasta, tentando escapar. Era um corpo possuído por si mesmo, preso em sua própria carne, amaldiçoado a revirar-se num inferno sem fim de escuridão, dor e agonia.
Sua existência profana não fazia sentido. Todas as almas que estavam em sua presença sentiram o martírio devastador daquela contorção pavorosa e sobrenatural. O puro ato de existir era muito… muito pior que apenas perecer.
Uma escultura abominável.
Homens prepotentes que antes riam e xingavam, comentando como as ancas das mulheres e barbarizando o fato de viverem recobertas por muralhas de tecido. Esses mesmos homens agora estavam em puro desespero. Gritavam ao léu da noite deserta e silenciosa, vomitavam suas tripas fermentadas em álcool; outros simplesmente catatônicos como as mulas estáticas iguais ao mármore mais rígido, presos por aquela imagem quase indescritível, tão horrenda que para eles nem Satanás era capaz de tal abominação.
Acho que alguns só não caíram mortos, pois a escuridão foi bondosa o suficiente para esconder dos olhos daqueles patéticos homens a realidade visceral daquele ritual em nome do mau.
Dr. Matthias, o médico curador das pestes, fora o único — corajoso ou insano o suficiente — para avançar a barreira da escuridão, se lançando no abismo devorador que se punha à sua frente. Apenas catou uma das lamparinas que ainda balançavam pela reação das mulas e abandonou sua última âncora com a sanidade, levando sua luz para revelar todas as dimensões perversas ocultas pelo breu.
Aquele homem tão soberbo se pôs a investigar, se arrastando penosamente, lutando contra os próprios instintos, aproximando-se a passos curtos dos portões.
Em sua necedade arrogante, ele acreditava piamente já ter visto terrores como aquele que se punha à sua frente. Pensou que, depois de ver crianças e mulheres se transformarem em massas de pus e pústulas negras, cobertas por sangue seco — expelido em tosses rubras — resistiria a frente de qualquer atrocidade; ao contrário dos frouxos atrás dele, que se contorciam na lama como porcos temerosos diante do abatedouro.
Só que nenhuma mente, não tocada pelas sombras, seria capaz de se manter lúcido ao encarar aquele escárnio contra a vida. A cada passo, mais um detalhe meticulosamente sádico punha-se à sua frente, tornando-se cada vez mais impossível negar sua insignificância diante daquilo. Nenhum homem seria capaz daquilo, outras mãos estavam envolvidas naquele corpo.
As proporções apresentavam-se absurdas, com braços tracionados até o limite — tinham virado filetes fibrosos tão finos atingindo quase dois metros. Pernas delgadas, esticadas delicadamente, fibra por fibra, reorganizando cada fascículo em novas formas; estruturas tão finas quanto as veias que nutriam aqueles músculos com sangue.
A macabra arte estava dependurada a três metros do chão, entre os galhos da grande árvore que guardava os enormes portões do armazém. Parecia um pedaço de carne colocado ao vento para curar, ganhar mais sabor… Certas partes eram tão esguias que se tornaram translúcidas e mostravam um líquido negro circulando insidiosamente entre as linhas vermelhas. O piche fluía até o pescoço e escorria em gotas viscosas pelo corte perfeitamente reto da decapitação.
E todos esses detalhes minuciosos e bizarros que te dei foram escritos freneticamente pelo médico por seis noites inteiras. Sabemos disso pelos prontuários não assinados por ele no hospital e um último documento, que declarou seu desaparecimento e posterior morte.
No obituário consta que ele se degolou, quase conseguindo decapitar a própria cabeça, sobre seus papéis em uma crise de histeria causada pela ingestão não prescrita de chá de beladona, ópio, muita bebida e outras infusões que não foram identificadas. Por conta de ter acabado com seu tormento em cima de sua escrivaninha, o médico tingiu de sangue boa parte de seus escritos.
Então, por conta desse acontecimento insólito, boa parte do que está nas páginas se tornou ilegível, pelo menos é o que diz a diretoria do museu. Certeza que com um pouco de esforço e investimento, daria para fazer algo, mas o prefeito nunca autorizaria, já que é muito mais importante desviar verba, não é mesmo? Assim, o mistério permanece: teria tudo o que ele relatara desesperadamente sido real? E como se deu o fim daquela noite tão bizarra?
Será que ele enlouqueceu por conta do que escrevera na parte remanescente da carta ou existem males ainda mais amaldiçoados e aterrorizantes escondidos no sangue? Já que pelos documentos que alcançaram nosso tempo, o Dr. Matthias era um homem racional e elevado, até levemente ostracizado socialmente pelo seu ceticismo exacerbado.
Então a única explicação plausível seria que o abismo se mostrou ainda mais profundo e incompreensível, uma realidade obscura demais para ser justificada com ceticismo e o brilho da ciência. Então, ele se lançou ao vazio.
Acho que, para você entender melhor o estado em que ele ficou, vou transcrever aqui uma parte da carta que consegui anotar quando, há uns anos, brincava de espiã com minha ex-melhor amiga no pequeno museu do hospital.
Então aqui vai:
Observação — a linguagem é meio difícil de entender, pega o dicionário, bocó.
“Quanto mais aproximava-me de tal cena pavorosa e enigmática, tentando postergar meu encontro com o maléfico, com certo medo do que veria, saquei meu relógio da algibeira; marcava 23 minutos e 23 segundos após a décima primeira hora, momento que reconheço agora como portal direto para o inferno abismal em que me encontro.
Tentei em descontento amover meu olhar, encarando os mulós de carga, outr'ora animaes dóceis e amançados — converteram-se em demônios escarvoejantes, seus couces desferindo golpes tão precisos como se guiados por mão invisível. Apresentavam como eu as marcas bestiais, e das bocarras escorriam-lhes um piche umbroso que voava pelos ares em meio a relinchos odiosos.
Mira tão precisa que golpeara Percival, aquele maldito boçal intrépido, fazendo-o cuspir mais do mesmo icor entumecido. Assim que vi seu corpo estirado ao chão enquanto o homem tremia tomado por força incompreensível, ele sumira na mata, arrastando-se pela força das pernas ainda deitado e marcando trilha macabra pelo chão.
Fora visão abominável tal que me pôs novamente a encarar aquele trabalho maquiavélico, um reflexo irracional de minha psyque para evadir de tal visão.
A obra foi construída em precisão tão ferina que fiquei profundamente hypnotizado, pensando na capacidade das mãos do artífice que teria forjado tal trabalho, com a devoção lancinante de um sacerdócio profano, sacrifício à dor e ao Mau, mas com precisão assombrosa que nenhuma sciencia do homem jamais alcançará.
Musculatura recomposta em figuras geométricas exactas, palpitando sem auxílio do coração extirpado; era o icor que, de forma profana, dançava por todos os tecidos.
Punição
A pele fora precisamente extraída e retorcida em cordões, ressonando tal qual um órgão infernal, produzindo vibrações penetrantes aos tympanos — Os movimentos coordenados das fibras faziam a pele se retorcer ainda mais, cada ligadura posicionada perfeitamente, reverberando uma balada escrita pelas mãos do próprio inominável.
Pescoço degolado — secção limpa e feita em um só golpeio. Estava afogueado, um corte ressequido como exposto à lâmina fervente, era como se a própria foice do exício, a foice mortal, lâmina vorpal, possuinte do desenlace da alma de todos os homens, o tivesse partido.
Minos decidiu o destino daquela alma impura. Purgar, punir, desfazer e recriar. A perfeição da simetria do diabo. Assim como as almas dos que queimam e sangram à beira do rio Cócito, dos galhos que lançam seu icor amaldiçoado de arrependimento como seiva maligna que escorre pela terra seca dos traidores, selados pelo breu sanguíneo dos corpos retorcidos, aquele corpo sofria.
A agonia tamanha, o dançar espasmódico dos músculos — tudo aquilo era guiado pela atrição do imperfeito, o traidor de nossa santidade, corruptor blasfemo dos dizeres da besta surgida do crepúsculo.
Atrição
Antes que o Στυξ leve de mim o pouco que me resta de sanidade, meu mui estimado colega, deixo aqui os sintomas de minha chaga:
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Ruptura dos tympanos, jorrando pez e seiva ardente.
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Rebentamento dos vasos oculares, tingindo minha vista de rubro.
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Minha derme desprendeu-se em finas tiras desde o antebraço até o torsso, manchando minhas roupas de sangue quente e tais cortes expulsavam por entre minhas fibras musculares pequenos cristais de âmbar.
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Purificação do receptáculo e expurgo dos pecados por meio do sangue.
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Tato aguçado; mesmo estando quase cego e surdo, eu tinha a certeza que as gotas do meu sangue estavam ascendendo por meus braços e também se acumulando sobre meus dedos, formando sublimes desenhos.
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Capacidade de ouvir e ver o véu além; foi-me revelada a passagem para o intangível, agora ouço com altivez o que antes não podiam me dizer.
Lhe escrevo tudo isso ainda cego, kedves barátom, enxergo agora pelos olhos do outro lado.
Todos estes sintomas se arrebataram sobre mim quando meus olhos se encontraram com a cabeça, revelada aos meus pés — quando em desespero derrubei o lampião ao chão. O sangue fervilhava, dançando pelo vento. Movimentos impossíveis à minha frente, a natureza fora profanada diante de meus olhos.
Constrição
Então as cavernas vazias da cabeça moribunda me encontraram e em um abalo fugaz o demônio abriu a boca defunta pôs língua pútrida ao ar e o som do desespero de mil almas se lançou aos meus tympanos.
Foi assim que tudo foi-me revelado, meu mui estimado amigo não sou louco apenas um homem ao qual foram revelados os mistérios da verdade de nossas sombras.
Envío a ti junto a esta carta:
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Amostras do sangue que fluía contra as leis gravitativas.
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Esboços a carvão dos padrões e geometrias que fui capaz de capturar no papel.
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Meu chronômetro morto, testemunha de minha ruína.
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Os cristais de pecado expulsos por minha pele.
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Tecido recolhido dos mulós de carga que adoeceram logo ao nascer do sol.
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Estou há mais de quatro dias lendo e revisando todos os escritos deixados pelo sacerdócio de nossa santa roubeios dos arquivos clericais alguns mapas da cidade e esta madrugada sei aonde devo ir! eles me chamam meu amigo, terei mais provas para lhe enviar em breve.
Com o que irei encontrar toda a comunidade da parapsicologia medicina e quiçá da própria santíssima igreja terão que curvarse á minha descoberta ouvir o que foi revelado a mim.
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Escrevo aqui com papel e carvão, pronto para descer ao portal de onde vibram as gargantas do além meu emissário de confiança lhe entregará isso em mãos.
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Por favor, me encontre…”
Tinha uma errata no fim da página, rabiscada em outra letra, que dizia — Sr. Matthias morreu noite passada. Continuaremos sua obra. Abençoada seja. Esse último fragmento de uma linha foi encontrado no cemitério, perto da trilha que o ligava ao hospital da cidade.
A carta certamente nunca foi enviada, já que ele foi encontrado morto debruçado sobre seu próprio relato de horror. Fazem muitos anos que fui no museu, até porque o grandessíssimo arrombado do prefeito fechou a ala histórica quando eu tinha 13 anos. A justificativa era: reformas e restauração — o que não aconteceu — e agora eu já estou no fim do terceiro ano, e aquela merda ainda está fechada, mas eu lembro muito bem de uma coisa… a deterioração.
Era visível, quase palpável. Mesmo por trás dos vidros do expositor, eu conseguia sentir uma gravidade, o peso da ruína de uma mente em agonia. A letra dele, antes regular e alinhada, dava lugar a rabiscos, palavras cortadas, inúmeras manchas… até mesmo o alinhamento das letras estava completamente disforme chegando nas partes finais.
Foi muito difícil, na época, para eu conseguir transcrever toda parte legível porque, além do escuro, havia momentos em que tudo era escrito em formas desconexas, que eu só consegui alinhar agora, anos depois. Acho que comecei ano passado e só fui terminar agora, transcrevendo para você.
Era simplesmente decrépito.
Eu não consigo acreditar que um pouco de ópio e cachaça transformaria um médico cético e centrado em um maluco conspiracionista, que se vivesse nos dias de hoje estaria correndo por aí com um chapéu de papel alumínio.
Os registros do monastério dizem que ele tirou a própria vida em meio a um surto de “mania vesânica”. Embarcaram todo o relato, e os acontecimentos que se sucederam depois, apenas como um acesso de nervos por conta de ser um homem sozinho, viúvo recluso que vivia para o trabalho e que, em um dia de bebedeira, ao ver casais felizes com suas famílias, entrou em desgraça e se matou.
Não posso aceitar isso.
Tenho certeza que — com o mínimo de verba — o museu seria capaz de revelar pelo menos mais alguns dos fragmentos, além de fazer a análise dos objetos que o Dr. Matthias tentou enviar a seu amigo, um médico de Recife, e teríamos certamente mais respostas sobre aquela noite.
Ele podia estar intoxicado, alguém ter drogado ele, e vendo uma cena tão devastadora ele entrou em surto completo. E para não gerar pânico e revolta, a igreja e o prefeito acobertam tudo.
Mas o museu permanece fechado, junto com as respostas que ele guarda, apodrecendo junto com a verba desviada.
Alguns curiosos, autointitulados ocultistas, exploradores e até mesmo alguns historiadores sérios já apareceram por aqui tentando de alguma elucidar esses mistérios, entender mais sobre a santa padroeira dessa minha cidadezinha, só que nunca tem um fim.
Sempre acaba nas mesmas três possibilidades:
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Eles chegam. Todos fingem que nenhum desses mistérios existe. O hotel lhes nega hospedagem, e a exploração não dura mais de um dia.
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Aí tem os malucos que chegam aqui para explorar as construções antigas ou se embrenhar nas trilhas, à procura de mais coisas sobrenaturais, e simplesmente são expulsos da cidade, já que “são invasores da nossa cultura, cidade e profanadores dos nossos costumes”, frase que já decorei de tanto que sai da boca do frade, sempre que aparece algum que não é daqui.
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E finalmente quando aparece alguém sério. Com documentos, estudo, vontade de verdadeiramente entender a origem e história nebulosa daqui, a pessoa é simplesmente ostracizada a tal ponto que desiste de continuar porque NINGUÉM toma a iniciativa de ajudar.
Também existem aqueles que querem saber sobre as águas curativas dos poços da cidade ou vem para os shows clandestinos no armazém abandonado. Mas não adicionei nenhum dos dois na lista porque a maior parte do turismo que acontece aqui é por conta disso e ninguém mais liga. Se quiser, um dia te conto sobre as águas daqui, só que na internet já deve ter bastante coisa, passou até no jornal. Porém os detalhes escabrosos eu tenho que perguntar para minha vó.
Tirando isso, até hoje, por conta desse domo de aço construído em volta de tudo que seja relacionado a essa maldita santa ou qualquer outro mistério da cidade, eu só tenho o conhecimento que me passaram no colégio da cidade alta, que é administrado pela igreja…
Ninguém que eu conheça, mesmo os mais idosos, já entrou lá.
Os cultos e missas acontecem sempre no mosteiro ou em uma pequena capela ao lado da catedral, construída em homenagem ao missionário que chegou aqui nos anos 70, depois dos escândalos com as fontes curativas. O problema daqui é que ignoram tudo que não convém dizer, parece até que a catedral simplesmente não existe — ainda que em todas as orações e preces a santa ignota se faça presente.
Eu não sei de nada além do que a minha vó tenha me contado ou das migalhas obtidas em meio às aulas de história da escola. Eu sempre tentei ignorar o quão bizarro era quase toda uma cidade ignorar algo que se impõe à vida de todos nós todos os dias, só relembrando de sua origem em um único dia do ano. Mas te escrevendo agora, todo esse sentimento de azia e raiva voltou completamente para mim.
Então, já que ninguém vai tomar responsabilidade de porra nenhuma dessa cidadezinha de merda, eu mesma vou atrás de respostas. Nenhuma barreira nunca me parou, e não vai ser agora que eu vou fingir não ver algo que sempre martelou tanto na minha mente.
Mas, enquanto não inicio minhas buscas, é isso que sei. Esse é o motivo do carnaval tão peculiar daqui e a razão de nos unirmos todos os anos, exatamente às 11:23 da noite. Para cantar, dançar, se divertir. Tudo para afugentar o espírito maléfico do extirpado. Pois dizem que o espírito daquele homem esquecido vaga, em busca de vingança, no dia de sua morte.
Essa é a história do carnaval da minha “pacata” cidadezinha.
Vou enviar junto uma foto que consegui tirar com meu celular. Está uma bela merda, mas fazer o quê? Minha câmera quebrou e minha mãe não vai me comprar outra tão cedo.
Um abraço, seu idiota.
Ass. Eu
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