Gabriel Merchak.
Uma história envolvente sobre o mistério curioso que envolve um antigo costume peculiar de uma pequena cidade, morada de uma jovem bisbilhoteira e cercada por terrores que se escondem nas vielas de pedra antiga, trilhas obscuras e grutas murmurantes. Que serão desvendados ou a devorarão nos próximos capítulos.
aviso: conto de terror com conteúdo sensível como: sangue, tortura e suicídio.
[The English version will be available soon.]

Eu moro em uma cidadezinha interiorana como você bem sabe, aliás de forma muito irritante vive me perturbando com isso, então por conta desse fato nunca falei muito sobre aqui porque, na minha visão, nada seria suficientemente interessante — e se eu ousasse lançar a você “o cachorro da dona Elvira sumiu… gerou o maior fofoca na cidade” além de eu sair como tonta e fofoqueira você sem duvidas iria me perturbar com isso por pelo menos 3 meses, assim como você fez com o causo do burro — ainda não te perdoei sobre isso, seu INSUPORTÁVEL — mas tudo isso mudou logo quando postei A foto no fotolog. Você me infernizou tanto com isso que vou te explicar tudo o que sei e assim rezo para você me deixar em paz sobre isso, garoto.
Na foto você se fixou muito nas pessoas fantasiadas atrás de mim, sinceramente fiquei até ofendida de nem ter elogiado meu cabelo novo, você sabe o quão difícil é achar uma tinta vermelho cereja por aqui? Mas enfim… toda algazarra que aparece no fundo da foto, emoldurando as laterais do meu belíssimo rosto hahaha, é o carnaval da minha cidade.
Sim, é estranho; sim, parece muito com o halloween, mas se você ousar dizer isso eu vou aparecer debaixo da tua cama e rancar teu pé. E sim, tem uma explicação; a gente não é uma cidade de 3332 góticos que se viciaram em fazer cosplay de EUA — só que na época da caipirinha e glitter.
O carnaval da minha cidadezinha surgiu na época em que ela ainda era um grande vilarejo. Todos os rituais de comemoração surgiram logo no primeiro carnaval, como uma forma de tentar apaziguar ou pelo menos aliviar todo o horror que se abateu na cidade justamente em sua primeira grande comemoração.
Tudo teve início no ano de 1889, fazia 23 anos da inauguração do primeiro assentamento na cidade e assim consequentemente a criação da mesma. O vilarejo surgiu a partir de um grupo pequeno de alguns italianos dissidentes, eram comerciantes imigrantes chegados ao Brasil pela querência da coroa, que tinham como objetivo incentivar a modernização e desenvolvimento do comércio.
No entanto, esse pequeno grupo não se adaptou à efervescência da cidade grande latina, tão caótica e quente {europeus fracotes bundões} e fugiram junto de um grande empresário do granito, o fundador do vilarejo, sonhador delirante obcecado com viver dentro de uma pequena cidade de alto luxo. Assim foram, tentando caçar o desejo quase pecaminoso de viver como os nobres da França, cercados por campos verdes e châteaux.
Todos os comerciantes foram convencidos do discurso e promessas dados pelo já autodeclarado prefeito e arrastaram consigo tudo que tinham: seus incentivos governamentais {lê-se grana roubada}, suas mulheres e crianças, além de tudo e qualquer coisa que ajudasse a erguer o sonho daqueles pequenos aristocratas de faz-de-conta.
Tudo o que possuíam foi trazido para cá — antes um meio do nada enredado dentro das abandonadas terras seculares de uma baronesa do antigo império — que fora engolido no tempo junto de seu rastro, apagado pela mata e corroído pela arrogância de homens velhos. E que tornaria-se a morada da tolice de novos homens vazios.
O astuto e ambicioso empresário já sabia onde levaria sua comitiva, era a terra prometida. Ele recebera de fontes privilegiadas — a partir de pequenas trocas de favores e fofocas políticas — que existiam terras antigas próximas a serra do mar, semelhantes aos belos montes ingleses, que serviram de morada para uma aristocracia reclusa e separatista da sociedade brasileira que por gerações viveu isolada nas montanhas e envolta na neblina de seus dogmas.
Sabendo disso, sua mente o fez querer desesperadamente viver como esses nobres, se sentir acima do mundo. Assim foi pesquisando ao longo de meses por onde andavam os mapas que revelariam as velhas estradas e o levariam para seu sonho, enquanto também sonegava ainda mais impostos para juntar fundos e planejava a escapada com seus comparsas.
Assim depois de alguns meses quando finalmente pôs as mãos nos tão desejados mapas, reuniu a todos e saiu fugido da capital, como planejado, na calada da noite em rumo aos ermos do estado, desbravando as estradas soterradas pela Mata Atlântica enquanto tentavam achar o grande ponto de referência que era marcado pelos mapas.
Foram meses de caminhada, cheios de descrenças e intrigas, as quais povoavam os curtos acampamentos entre as infinitas trilhas, como fantasmas zombeteiros. Porém a caminhada finalmente teve um fim quando o “prefeito”, engolido pelo desespero, suplicou em meio a breu da mata que qualquer coisa trouxesse a ele o seu grande desejo.
Foi assim que no dia seguinte todos levantaram novamente suas tralhas e se arrastaram para seus cavalos magros. Vagarosos e descrentes seguiram a contragosto seu líder, mas dessa vez com uma surpresa. No fim do dia quando a esperança se esvaia com os raios do sol, desembocaram em uma visão que se faz impressionante aqui na cidade até hoje, o marco, finalmente eles haviam o encontrado. Os mapas eram traiçoeiros mas não mentiam, eles por fim foram agraciados com a benção do que os fora prometido, A Catedral.
“Deus está conosco” foi exclamado por todos, enquanto encaravam com brilho nos olhos a imagem de uma bela santa em mantos vermelhos, intacta sobre as vinhas e apoiada sobre o vitral no frontão da catedral, erguido como uma entidade em meio a floresta.
Desde aquele dia a Santa se tornou a padroeira sem nome de nossa cidade, a operadora de milagres silenciosos, a grande benfeitora, Santa Ignota, a livre do julgamento de Deus.
A partir desse dia eles se assentaram nas terras que hoje sustentam a cidade onde vivo. Os primeiros dias foram descritos como temerosos e opressivos mas a presença da santa os fazia perseverar e em pouco tempo sem auxílio de trabalhadores ou escravos, o que é a porra do minimo para a competência de um ser humano descente, eles levantaram a primeira grande casa, seguindo as orientações do seu “sábio” prefeito.
Ao longo das semanas foram desbravando as matas e descobrindo outras construções próximas à catedral, escondidos pelos galhos retorcidos e neblina densa. Começaram a carpir as terras e em pouco tempo criaram um descampado em volta da catedral, assim em pouco tempo outras construções começaram a surgir, o cerne da futura cidade surgia.
Assim, nada mais justo, na visão deles, do que comemorar o desenvolvimento recorde daquele vilarejo, depois de tanto esforço, saído do “nada” e transformado numa bela vila bucólica envolta de proteção superior. E ainda contando com valores de civilidade, tendo funcionários remunerados no estilo moderno e europeu, encantadoras ruas largas preenchidas com canteiros de inúmeras flores, casas neoclássicas teletransportadas direto de Paris, uma lindíssima praça circular no centro da cidade, hoje em cacos, e belas mulheres de altíssima classe posando junto de seus maridos no passeio da tarde, tudo era perfeito.
Os canteiros de flores murchavam com o adubo feito com o ouro roubado. Porém nada disso era relevante, o que se via era o verdadeiro trunfo, as aparências, criadas por meio do “puro esforço” daqueles homens de bem.
Então era imprescindível festejar, o Brasil finalmente estava a caminho de ser uma grande república moderna e acima de tudo os homens também se faziam empolvorosos pela saudade da boemia que não podia ser suprida apenas por pequenos bailes ou aniversários, os jovens também queriam se divertir e uma população de 668 habitantes merecia uma festança verdadeira.
Você pode até se perguntar como um ermo tão pequeno e isolado contava com tantas pessoas, para aquela época pelo menos. Pois eu faço questão de contar.
Esse tanto de gente chegou a cidade por meio da fofoca — a forma mais antiga de compartilhar informações — foi se alimentando a partir dos fuxicos feitos em cima de alguns telegramas enviados para a capital e cidades vizinhas, saídos do “meio do nada”, atrás de funcionários para cumprirem funções que jamais os falsos aristocratas se sujeitariam por mais de alguns meses.
Quando uma contratação era estabelecida era enviado, junto com algumas provisões, as instruções para encontrar um informante e seguir o caminho para a cidade, assim logo o rumor de um paraíso burguês se espalhou pelo ouvido de certas pessoas abastadas e de forma selecionada ganharam também um mapa para alcançar a cidade.
E foi nesse clima de luxo e ilusão que o primeiro carnaval foi planejado. Em menos de 15 anos a cidade já contava com 112 trabalhadores, incluindo crianças exploradas obviamente, que serviam de forma obediente os mais de 144 pequenos burgueses, cuidando de seus bebês criados em berços de ouro, mulheres de porcelana que serviam de cabides para roupas caras e homens de ego maior que a própria catedral da cidade.
A população foi expandindo anualmente, entre doenças, mortes, vindas e idas, a cidade foi crescendo, e como já disse, no ano em que o primeiro carnaval ocorreu, contava com 667 habitantes, entre serventes e senhores. E dessa forma tornou-se completamente possível que essa cidade comandada pelos moradores dos casarões pomposos criassem um grande carnaval digno de satisfazer seus egos.
Então desde o dia primeiro de janeiro, como constava nos autos da votação, começaram a colocar em prática os planejamentos, iniciando pela montagem das barraquinhas e decoração da praça central que seria o centro da festa.
Já que a praça foi construída envolta de uma antiga oliveira, provavelmente plantada pela baronesa e tinha uma visão privilegiada para a grande catedral, que era realmente grande, estranhamente grande, o máximo que deveria existir ali seria uma capela e aquilo se aproximava das catedrais na capital — Como tudo isso foi trazido aqui? Alguns poucos se perguntavam quando saíam de manhã para o passeio matinal.
No entanto, num momento de tanta agitação e felicidade quase entorpecente, nenhum dos mistérios do pacato vilarejo se faziam importantes, ainda mais em um passado tão longínquo, mesmo ainda tão imponente a todos. A festa era o centro das atenções.
Estavam todos ansiosos, mandavam e desmandavam, pediam por mais bandeirolas, queriam que os arbustos que emolduravam as romanzeiras espalhadas pelas ruas estivessem perfeitos, obrigavam as suas costureiras a trabalhar noite e dia na decoração de suas máscaras e bordando nas cortinas que decorariam as barraquinhas de quitutes, gincanas e curiosidades.
Tudo precisava estar perfeito até o dia do carnaval.
Cada milímetro daquela festa já havia sido decidido no jantar de natal, feito no grande salão da prefeitura. Onde Ernesto Prestes, nosso fundador, fez a votação e redigiu o documento que na mesma noite foi assinado por todos presentes, selando o compromisso de cada um sobre a comemoração que viria.
Faziam mais de dois meses que todos sonhavam diariamente na grande comemoração que fariam, usufruindo absurdamente de todos os luxos possíveis, por um dia inteiro.
Queriam se sentir como os nobres que viviam no palácio de versailles, passar por pelas ruas largas, os edifícios decorados, pequenos praceados ingleses e belos sobrados impecavelmente construídos para aquele cenário bucólico e artificial de uma europa tupiniquim e se sentir como a realeza.
Chegando em fevereiro, a comemoração estava impecavelmente organizada e todos estavam muito ansiosos para aproveitar tudo que a festividade poderia proporcionar. Quando o dia chegou, logo de madrugada todos os funcionários passaram pelos corredores dos bosques, escondidos e reclusos, pegaram todo necessário e foram organizar toda a praça para que seus chefes já acordassem com diversão e a energia do carnaval.
Os ciganos circenses, convidados pelas 3 dondocas francesas, abriram suas barracas para entreter o povo, as senhoras de classe levavam seus doces para os quiosques já aprontados, enquanto o prefeito trazia em sua carruagem os belos instrumentos para a banda. Não eram nem 8 da manhã e as pessoas já passeavam pelas ruas animadas, esperando a festa realmente começar.
Meio dia e finalmente tudo estava em seu lugar, o palco elevado envolta do canteiro onde repousa até hoje a velha oliveira, as bandeirolas penduradas por todo telhado do grande gazebo da praça central — criado por um renomado arquiteto austraco que morava na vila. As barraquinhas já abastecidas e as crianças correndo de suas babás à procura de mais diversão.
Depois de muita folia, bebida, música e diversão, a noite finalmente chegou e com isso os cidadãos entraram num consenso: encerrar a festa.
Então foram guardar os principais itens, como os instrumentos, que eram caros, os panos bordados e outros objetos que agora repousam no museu da cidade. O objetivo era que nada ficasse ao relento da noite e muito menos ao alcance dos ciganos, aqueles que nenhum dos moradores da cidade, mesmo os pobres, confiava de forma alguma, já que eram — ladrões, apóstatas pagãos — as vozes da hipocrisia berrazam em um silêncio ensurdecedor pelas vielas.
Os donos dos estabelecimentos fecharam suas lojas, depois que os empregados levaram para o fundo todos os quitutes que sobraram, bordados finos e os artesanatos que as madames vendiam para passar o tempo. Então, quando tudo estava seguro e longe das mãos de qualquer malfeitor, todos se recolheram às suas casas, inclusive a criadagem, que sumiu na neblina do vale, engolidos pelo som das cascatas.
Os únicos que ficaram foram: o dono da barbearia, o chaveiro, o médico e mais alguns homens meio bêbados que pegaram um carroção, duas mulas bem fortes e rápidas e mandaram que os últimos criados carregassem os itens precisos para dentro, com muito cuidado, especialmente os instrumentos russos fornecidos pelo prefeito, para que eles se dirigissem o mais rápido ao armazém da prefeitura para guardá-los de forma segura.
O grande armazém se localizava no limite nordeste da cidade, dentro da grande plantação. Ficava entre a última rua, que descia para a mata, e uma das grandes torres observatórias.
Era cercado por grandes portões e grades altas, montadas a partir de partes de um gradil quebrado nos fundos da catedral e remendados com novas ferragens. Eram hastes de metal compridas, delgadas e cheias de rocailles, que ostentavam um passado muito mais antigo do que qualquer um que protegiam.
Foram nesses portões onde o terror que permeia o carnaval da minha cidadezinha teve início. Era um corpo, mas não qualquer corpo; não eram apenas facadas de briga, tiro no peito por um roubo que deu errado ou um suicida enforcado que finalmente havia tomado coragem depois de uma noite de bebedeira.
Era algo muito, muito pior…
Aquela atrocidade maligna de sadismo distinto foi capaz de perturbar a mente de todos os olhos que a avistaram. Aquele trabalho nefasto parecia um ritual meticuloso feito pelas próprias mãos da besta, feito para invocar O Desespero e O Medo. Era a carne de um homem que foi deflorada e maculada, não sobrava ali um único sopro de paz.
Aquele corpo não estava apenas morto — estava transformado. Uma escultura de carne e osso, meticulosamente desmontada e remontada em formas que desafiavam a lógica.
Os homens tolos e bêbados não sabiam o que estavam prestes a presenciar, no entanto as mulas tentaram os avisar e brecaram subitamente, o instinto as coordenavam muito mais do que as rédeas apertadas por Percival, o barbeiro.
Ele tentou fazê-las continuar à chicotadas mas as cabeças dos animais estavam petrificadas em direção ao escuro, cascos afundados na terra lodosa e músculos rijos como mármore, a morte para elas era menos ameaçadora do que aquilo que se escondia na escuridão a frente.
Tiveram que descer do carroção e arrastar as caixas até o grande portão.
Foi nesse instante que a luz crepitante das lamparinas trouxe a eles tal presente atroz, uma cena tão nefasta que os fizeram entender imediatamente o porquê de conseguirem ouvir o coração pulsante das mulas em meio aos seus relinchos e coices aflitos.
Um corpo, na verdade um quebra cabeça demoníaco rearranjado de formas impossíveis. Todos os membros estavam perfeitamente abertos ao meio, invertidos, ossos brancos e límpidos agarrados por tendões pulsantes prestes a romper. Olhos atentos e estéricos escanearam toda a carcaça vil, mas era impossível achar qualquer traço humano ali.
Não havia sangue jorrando, todas as artérias se mantinham intactas, órgãos intocados e vibrando lentamente, tudo ali era bizarro, impensável, irreal.
Parecia que algo se agitava naquela prisão nefasta, tentando escapar de todas as formas possíveis, era um corpo possuído por si mesmo, preso em sua própria carne, amaldiçoado a revirar-se em si em um inferno sem fim de escuridão, dor e agonia.
Sua existência profana não fazia sentido, todas as almas que estavam em sua presença sentiram o martírio devastador daquela contorção amorfa e sobrenatural, o puro ato de existir era muito… muito pior que apenas morrer.
Escultura abominável.
Homens prepotentes que antes riam e xingavam alegremente comentando como as ancas das mulheres e barbarizando o fato de viverem recobertas por muralhas de tecido, agora estavam em puro desespero. Gritavam ao léu da noite deserta e silenciosa, vomitavam suas tripas fermentadas em álcool, outros simplesmente catatônicos como as mulas estáticas igual ao mármore mais rijo, presos por aquela imagem quase indescritível, tão horrível que para eles nem Satanás era capaz de tal abominação.
Acho que alguns só não caíram mortos pois a escuridão era benevolente o suficiente para esconder dos olhos daqueles patéticos homens tolos a realidade visceral daquele ritual de devoção ao próprio mal.
Doutor Matthias — o médico curator das pestes, fora o único corajoso ou insano o suficiente para avançar a barreira da escuridão e se lançar no abismo devorador que se punha à sua frente. Catou uma das lamparinas crepitantes que ainda balançavam pela reação das mulas à presença profana e abandonou sua última âncora com a sanidade, levando sua própria luz para revelar todas suas dimensões perversas.
Aquele homem de soberba quimérica pôs-se a investigar, se arrastando penosamente em batalha contra seus instintos humanos aproximando-se ainda mais dos portões.
Em sua mente frívola tinha para si que já teria visto terrores tais como aquele que se punha a sua frente. Pensou que depois de ver crianças e mulheres se transformarem em massas de pus e pústulas negras cobertas por sangue seco de tosses rubras que ele resistiria a frente de qualquer atrocidade — ao contrário dos frouxos que se contorciam na lama como porcos que temiam a visão do abatedouro.
Só que nenhum ser ou criatura que não fora tocado pelas sombras conseguiria se manter são ao encarar aquele escárnio contra a vida. A cada passo mais um detalhe meticulosamente sádico se punha a sua frente, sendo cada vez mais impossível negar a realidade. Nenhum homem seria capaz de fazer aquilo, outras mãos estavam envoltas sobre o corpo.
As proporções apresentavam-se absurdas, com braços tracionados até atingir quase os dois metros. Pernas delgadas, esticadas delicadamente, fibra por fibra, até que cada uma se tornasse tão fina quanto as veias que nutriam estes mesmos músculos com sangue.
A macabra arte estava dependurada a três metros do chão, entre os galhos da grande árvore que guardava os enormes portões do armazém. Parecia um pedaço de carne colocado ao vento para curar, ganhar mais sabor… certas partes eram tão finas que se tornaram translucidas e mostravam um líquido negro circulando insidiosamente entre as linhas vermelhas que fluia até o pescoço e escorria em gotas viscosas pelo corte perfeitamente reto da decapitação.
E todos esses detalhes minuciosos e bizarros que te dei foram escritos freneticamente pelo médico por 6 noites inteiras, sabemos disso pelos prontuários não assinados por ele no hospital e um último documento atestando a morte dele assinado pelo dentista.
No obituário consta que ele se degolou, quase conseguindo decapitar a própria cabeça, sobre seus papéis em uma crise de histeria causada pela ingestão não prescrita de chá de beladona, ópio e muita bebida e outras infusões que não foram identificadas. Por conta de ter acabado com seu tormento em cima de sua escrivaninha, o médico tingiu de sangue boa parte de seus escritos.
Então, por conta desse acontecimento insólito, boa parte do que está nas páginas se tornou ilegível, pelo menos é o que diz a diretoria do museu, certeza que com um pouco de esforço e investimento em tecnologia daria para fazer algo mas o prefeito nunca iria autorizar já que é muito mais importante desviar verba, não é mesmo. Assim, o mistério permanece: teria tudo o que ele relatara desesperadamente sido real? E como se deu o fim daquela noite tão bizarra.
Será que ele enlouqueceu por conta do que escrevera na parte remanescente da carta ou existem males ainda mais amaldiçoados e aterrorizantes escondidos no sangue? Já que pelos documentos que alcançaram nosso tempo, o Dr. Matthias era um homem racional e elevado, até levemente ostracizado socialmente pelo seu ceticismo exacerbado.
Então a única explicação plausível seria que o abismo se mostrou ainda mais profundo e incompreensível, uma realidade obscura demais para ser justificada com ceticismo e o brilho da ciência, então ele se jogou ao vazio.
Acho que para você entender melhor o estado que ele ficou vou transcrever aqui uma parte da carta que consegui anotar quando a uns anos atrás brincava de espiã com minha ex melhor amiga dentro da parte sacra da cidade.
Então aqui vai:
Observação — a linguagem é meio difícil de entender, pega o dicionário.
“Quanto mais aproximava-me de tal cena pavorosa e enigmática, tentando procrastinar o encontro ao maléfico, com certo medo do que veria o relógio em minha algibeira marcava 23 minutos e 23 segundos após a décima primeira hora, momento que reconheço agora como portal direto para o inferno abismal que me encontro.
Tentei em descontento amover meu olhar, encarando os mulós de carga, outr'ora animaes dóceis e amançados — converteram-se em demônios escarvoejantes, seus couces desferindo golpes tão precisos como se guiados por mão invisível. Apresentavam como eu as marcas bestiais e das bocarras escorriam-lhes um piche umbroso que voava pelos ares em meio a relinchos odiosos.
Mira tão precisa que golpeara Percival, aquele maldito boçal intrépido, faznedo-o cuspir mais do mesmo icor entumecido. Assim que vi seu corpo estirado ao chão enquanto o homem tremia tomado por força incompreensível, ele sumira na mata, arrastando-se pela força das pernas ainda deitado e marcando trilha macabra pelo chão.
Fora visão abominável tal que me pôs novamente a encarar aquele trabalho maquiavélico, um reflexo irracional de minha psyque para evadir de tal visão. A obra foi construída em precisão tão ferina que fiquei profundamente hypnotizado, pensando na capacidade das mãos do artífice que teria forjado tal trabalho, com a devoção lancinante de um sacerdócio profano, sacrifício à dor e ao mal, mas com precisão assombrosa que nenhuma sciencia do homem jamais alcançará.
Musculatura recomposta em figuras geométricas exactas, palpitando sem auxílio do coração extirpado; era o icor, de forma profana dançava por todos os tecidos.
Punição
A pele fora precisamente extraída e retorcida em cordões, ressonando tal qual um órgão infernal, produzindo vibrações penetrantes aos tympanos — Os movimentos coordenados das fibras faziam a pele se retorcer ainda mais, cada ligadura posicionada perfeitamente, reverberando uma balada escrita pelas mãos do próprio inominável.
Pescoço degolado — secção limpa e feita em um só golpeio. Estava afogueado, um corte ressequido como exposto a lâmina fervente, era como se a própria foice do exício, a foice mortal, lâmina vorpal possuinte do desenlace da alma de todos os homens a tivesse partido.
Minos decidiu o destino daquela alma impura. Purgar, punir, desfazer e recriar. A perfeição da simetria do diabo. Assim como as almas dos que queimam e sangram a beira do rio Cócito, dos galhos que lançam seu icor amaldiçoado de arrependimento como seiva maligna que escorre pela terra seca dos traidores, selados pelo breu sanguíneo dos corpos retorcidos, aquele corpo sofria.
A agonia tamanha, o dançar espasmódicos dos músculos, tudo aquilo era guiado pela atrição do imperfeito, o traidor de nossa santidade, corruptor blasfemo dos dizeres da besta surgida do crepúsculo.
Atrição
Antes que o estige leve de mim o pouco que me resta de sanidade, meu mui estimado colega, deixo aqui os sintomas de minha chaga:
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Ruptura dos tympanos, jorrando pez e seiva ardente.
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Rebentamento dos vasos oculares, tingindo minha vista de rubro.
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Minha derme desprendeu-se em finas tiras desde o antebraço até o torço, manchando minhas roupas de sangue quente e tais cortes expulsavam por entre minhas fibras musculares pequenos cristais de âmbar.
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Purificação do receptáculo e expurgo dos pecados por meio do sangue.
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Tato aguçado; mesmo estando quase cego e surdo eu tinha a certeza que as gotas do meu sangue estavam ascendendo por meus braços e também se acumulando sobre meus dedos formando belos desenhos.
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Capacidade de ouvir e ver o véu além; foi-me revelado a passagem para o intangível, agora ouço o que antes eles não podiam me dizer.
Lhe escrevo tudo isso ainda cego, enxergo agora pelos olhos do outro lado.
Todos estes sintomas se arrebataram sobre mim quando meus olhos se encontraram com a cabeça, revelada aos meus pés — quando em desespero derrubei o lampião ao chão. O sangue fervilhava, dançando pelo vento, movimentos impossíveis à minha frente, a natureza era profanada sobre meus olhos.
Constrição
Então as cavernas vazias da cabeça moribunda me encontraram e em um abalo fugaz o demônio abriu a boca defunta, pôs língua pútrida ao ar e o som do desespero de mil almas se lançaram aos meus tympanos.
Foi assim que tudo foi-me revelado meu mui estimado amigo, não sou louco, apenas um homem ao qual fora revelado os mistérios da verdade de nossas sombras.
Envío a ti junto a esta carta:
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Amostras do sangue que fluía contra as leis gravitativas.
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Esboços a carvão dos padrões e geometrias que fui capaz de capturar no papel.
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Meu chronômetro morto, testemunha de minha ruína.
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Os cristais de pecado expulsos por minha pele.
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Tecido recolhido dos mulós de carga que adoeceram logo ao nascer do sol.
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Estou a mais de quatro dias, lendo e revisando todos os escritos deixados pelo sacerdócio de nossa santa, roubei dos arquivos clericais, alguns mapas da cidade e esta madrugada sei aonde devo ir, eles me chamam meu amigo, terei mais provas para lhe enviar em breve.
Com o que irei encontrar, toda a comunidade da parapsicologia, medicina e que sá da própria santíssima igreja terão que se curvar a minha descoberta, ouvir o que foi revelado a mim.
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Escrevo aqui com papel e carvão, pronto para descer ao portal de onde vibram as gargantas do além, meu emissário de confiança lhe entregará isso em mãos.
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Por favor, me encontre…”
Tinha uma errata no fim da página, rabiscada em outra letra, que dizia — Matthias morreu noite passada. Continuaremos sua obra. Abençoada seja. Esse último fragmento de uma linha foi encontrado no cemitério, perto da trilha que o ligava ao hospital da cidade.
A carta certamente nunca foi enviada já que ele foi encontrado morto debruçado sobre seu próprio relato de horror, fazem muitos anos que fui no museu, até porque o grandessíssimo arrombado do prefeito fechou o casarão quando eu tinha 13 anos, com a justificativa de reformas e restauração — o que não aconteceu — e agora eu já estou no fim do terceiro ano e aquela merda ainda está fechada mas eu lembro muito bem de uma coisa… a deterioração.
Era visível, quase palpável, mesmo por trás dos vidros do expositor, eu conseguia sentir uma gravidade, o peso da ruína de uma mente em agonia. A letra dele antes regular e alinhada dava lugar a rabiscos, palavras riscadas, inúmeras manchas… até mesmo o alinhamento das letras estava completamente disforme chegando nas partes finais.
Foi muito difícil na época para eu conseguir transcrever toda parte legível porque além do escuro havia momentos que tudo era escrito em inúmeras formas desconexas que eu só consegui alinhar agora, anos depois, reescrevendo as passagens aqui nesta carta para você.
Era simplesmente decrepito.
Eu não consigo acreditar que um pouco de ópio e cachaça transformaria um médico cético e centrado em um maluco conspiracionista, que se vivesse nos dias de hoje estaria correndo por aí com um chapéu de papel alumínio.
Os registros dizem que ele tirou a própria vida em meio a um surto de “mania vesânica”, embarcaram todo o relato e os acontecimentos que se sucederam depois apenas como um acesso de nervos por conta de ser um homem sozinho, viúvo recluso que vivia por seu trabalho e em um dia de bebedeira vendo casais felizes com suas famílias entrou em desgraça e se matou.
Não posso aceitar isso, tenho certeza que com o mínimo de verba o museu seria capaz de revelar pelo menos mais alguns dos fragmentos além de fazer a análise dos objetos que Dr. Matthias tentou enviar a seu amigo, um médico de Recife, e teríamos certamente mais respostas sobre aquela noite.
Mas o museu permanece fechado, junto com as respostas que ele guarda, apodrecendo junto com a verba desviada.
Alguns curiosos, autointitulados ocultistas, exploradores e até mesmo alguns historiadores sérios já apareceram por aqui tentando de alguma elucidar esses mistérios, entender mais sobre a santa padroeira dessa minha cidadezinha, só que nunca tem um fim.
Sempre acaba nas mesmas três possibilidades:
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Eles chegam, todos fingem que nenhum desses mistérios existem, o hotel os nega hospedagem e a exploração não dura mais de um dia.
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Aí tem os malucos que chegam aqui para explorar as construções antigas ou se embrenhar nas trilhas, a procura de mais coisas sobrenaturais, e simplesmente são expulsos da cidade já que “são invasores da nossa cultura, cidade e profanadores dos nossos costumes”, frase que já decorei de tanto que sai da boca do frade, sempre que aparece algum que não é daqui.
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E finalmente quando aparece alguém sério. Com documentos, estudo, vontade de verdadeiramente entender a origem e história nebulosa daqui, a pessoa é simplesmente ostracizada a tal ponto que desiste de continuar porque NINGUÉM toma a iniciativa de ajudar.
Até hoje por conta desse domo de aço construído em volta de tudo que seja minimamente relacionado a essa maldita santa ou qualquer outro mistério dessa cidade eu só tenho o conhecimento que me passaram no colégio da cidade alta, que é administrado pela igreja…
Ninguém que eu conheça, mesmo os mais idosos já entraram lá, os cultos e missas acontecem sempre em uma pequena capela ao lado, construída em homenagem ao missionário que chegou aqui nos anos 60, parece que simplesmente ignoram a existência da catedral, ainda que em todas as orações e preces a santa ignota se faça presente.
Eu não sei de nada que a minha vó não tenha me contado ou das migalhas contadas em meio as aulas de história da escola. Eu sempre tentei ignorar o quão bizarro era toda uma cidade ignorar algo que se impõe a vida de todos nós todos os dias, só relembrando da origem dessa cidade no meio do nada em um único dia do ano — mas te escrevendo agora todo esse sentimento de angústia e irritação voltou completamente para mim.
Então já que ninguem vai tomar responsabilidade de porra nenhuma dessa cidadezinha de merda eu mesma vou atras de respostas. Nenhuma barreira nunca me parou e não vai ser agora que eu irei ignorar algo que sempre martelou tanto na minha mente e eu vivia tentando ignorar.
Mas enquanto não início minhas buscas, é isso que sei, esse é o motivo do carnaval tão peculiar daqui e o motivo de nos unirmos todos os anos, exatamente às 11:23 da noite. Para cantar, dançar, se divertir, com o objetivo de afugentar o espírito maléfico do extirpado. Pois dizem que o espírito daquele homem esquecido vaga em vingança no dia de sua morte para ter justiça.
Essa é a história do carnaval da minha “pacata” cidade do interior.
Vou enviar junto uma foto que consegui tirar com meu celular, tá uma merda mas fazer o que minha câmera quebrou e minha mãe não vai me comprar outra tão cedo.
Um abraço, seu idiota, espero que você me ajude nessa aventura.
Ass. Eu














