Gabriel Merchak.
Uma história que relata sobre o terror de ser assombrado por aquilo que não se entende mas que de alguma forma sempre esteve ali, à espreita.
aviso: conto de terror com conteúdo sensível como: sangue, gore e crises mentais.

Vou dormir e tenho um sonho. Muito vívido, como se tivesse vivendo um dia comum da vida real. Acordo, tomo meu café quentinho mas catastroficamente no primeiro gole acabo queimando a boca. Fico muito bravo e vou correndo lavar a boca e passar minha manteiga de cacau para evitar maiores danos, mas ela havia acabado, tudo dando errado naquela manhã. Troquei minha roupa e corri para a aula já que não aguentava mais ficar em casa. "Tchau mãe, te amo".
Chego na escola, a professora de história nos encheu de trabalhos, depois mais aulas chatas. Cálculos e mais cálculos da professora Zuleica, a mulher mais exigente do mundo, me encheu a paciência apenas porque errei duas vírgulas na fórmula e o pessoal ficou me zoando depois. Foi tão pessímo que até senti um calafrio esquisito na espinha… finalmente a última aula era de literatura francesa, uma das minhas favoritas.
Fui para casa depois desse dia desastroso, tomei um chocolate quente, lendo meu livro de romance que havia chegado enquanto estava na escola, única coisa boa do dia. Deitei depois de terminar o dever. Finalmente pude descansar… Antes de adormecer senti um grande arrepio e despertei ao mundo real.
Desperto na realidade percebo que o mundo segue o roteiro do meu sonho, escapo de me queimar com o café, antes de ir para escola passo na farmácia e compro minha manteiga de cacau favorita, chego na escola animado e pronto para enfrentar a aula de história. Chegando a aula de matemática sinto um arrepio e mal estar estranho, parece como se alguém me observasse de perto mas era apenas a professora que estava esperando estranhamente no corredor mas finalmente havia decidido entrar na sala.
Me concentrando nos cálculos nem lembrei do sonho mas repentinamente a professora me chama para o quadro e quase de forma instintiva respondo sem nem sentir minha mão, vejo que acertei perfeitamente o cálculo e sei disso pois Zuleica me olhava surpresa.
Chego em casa alegre e já peço meu livro novo a minha mãe, ela ri e diz — Nossa adivinhou como?? Tava realmente esperando por ele, né? Está na mesinha do canto meu anjo. Saio rindo e vou pegar meu chocolate quente na cozinha, subo para o quarto, faço o dever rapidamente e vou ler meu maravilhoso livro novo e obviamente da página que parei no sonho.
Abrindo na página 37 sinto um arrepio ruim que nem o início da aula, talvez seja ansiedade, uma estranha dor nas mãos, um vento bate em minha nuca, me arrepiando e tirando-me da leitura, percebo minha janela aberta, coisa que não lembrava do sonho mas… normal não nos lembrarmos de tudo, me faço acalmar. Fecho a janela e resolvo deitar, me cubro e antes de fechar os olhos sinto uma coisa me observando mas adormeço mesmo assim quase como numa hipnose.
Caio no mundo dos sonhos e ocorre como no anterior, o dia começa normalmente, chego na escola, tenho aulas normais mas chegando na última temos uma prova surpresa, não tinha estudado muito aquela matéria porque odiava o novo professor de geografia então nem fiz questão de responder só fiquei lendo e relendo a perguntas até dar o horário da saída. Fui para casa já esperando a bronca que receberia da minha mãe. No caminho de casa novamente sinto aquele mal estar esquisito penso em correr mas quase que instantaneamente a sensação se vai. Realmente ando muito ansioso.
Em casa vou correndo para o quarto tentando ludibriar minha mãe, falho miseravelmente já que ela me esperava no corredor, conto para ela cabisbaixo e surpreendentemente ela fica tranquila mas quando me abraça em forma de consolo sua pele é fria, só que o dia estava gelado então nada demais, eu acho.
Subi para o quarto tristonho e tentando não pensar demais, vou deitar mais cedo já que estava com um pouco de dor de cabeça. Adormeci rapidamente mesmo com a dor e um estranho incômodo como se olhos fumegassem em minha direção, assim como quando minha mãe ficava brava ao chegar em casa e me via lavando a louça em cima da hora mas estava cansado demais para ligar.
Só que a paz não dura muito tempo, me sinto sendo arrastado do mundo dos sonhos para realidade de forma inconstante sem conseguir permanecer em nenhum dos dois lados até que repente, com um terrível aperto no peito, desperto com olhos arregalados e virados para o canto da cama, sentindo muito calor.
Um demônio, no pé da cama — Será que estava ficando louco? — Brilhante como o sol, a coisa era extremamente quente. Uma energia tão maligna que já sentia como se a morte me arrebatasse, ver aquela criatura manifestava todo desespero intrínseco do terror humano, assim como uma presa que sabe que será morta, era como se a realidade se dobrasse chegando em seu entorno, tentava desviar o olhar mas era impossível, igual a um buraco negro que suga tudo que há em sua volta.
O quarto antes na penumbra estava em completa escuridão, mesmo com aquela presença sendo tão brilhante quanto uma supernova era impossível ver qualquer outra coisa, até a mim mesmo. Só enchergava aquele ser maldito. Em meio ao suor e agonia tentei gritar por minha mãe, mas minha voz só ecoava dentro de meu crânio, Ele se aproximava cada vez mais de mim, vagarosamente.
Começo a sentir muito ardor, um fumegar interno terrível, meus órgãos sendo aquecidos como uma sopa, logo dilacerados e pulverizados, uma dor excruciante toma todo meu ser e antes que eu pudesse perder a consciência, tudo se pinta de rubro fosforescente, sinto meus olhos saltarem do rosto e minha cabeça comprimir junto de um som de rocha, o vazio domina tudo e apenas uma frase é dita: "Nada escapa de mim e tu és meu".
Em espanto Leonardo acorda, sente dores por todo corpo mas não lembra porque, só sente como daquela vez quando pegara uma virose inexplicável ainda criança, lembra também da febre terrível que sentira na época e como seus pais mesmo preocupados se acalmavam sempre que Léo dizia “Mamãe, papai, olhem, meu anjo da guarda está aqui” mas logo voltava a chorar. Era um ser de luz inebriante, muito intensa e que mesmo sem olhos encarava Leonardo constantemente, o guardando, repetindo solenemente “Tu és meu escolhido e será levado pela Luz”.
Saindo desse transe de pensamentos antigos e memórias bestas da infância levanta e prepara-se rapidamente para escola pois a única coisa que lembrava do sonho eram as questões de geografia e não queria de forma alguma esquecê-las.
No intervalo ansioso mas ao mesmo tempo animado pois confiava que iria bem na prova pesquisando todas as informações das perguntas que lembrava, nem dando bola para suas amigas que o chamavam para o vôlei que tanto gostava de jogar. Fez a prova com maestria mesmo sentindo alguns formigamentos enquanto redigia as respostas e via as letras se embaralhando à sua vista.
Se dirigiu tranquilamente para casa um pouco melhor da dor de cabeça depois de tomar um remédio, deu a notícia maravilhosa de seu nove na prova, recebendo um abraço receptivo, carinhoso e muito quente de sua mãe.
No entanto um arrepio percorreu todo seu corpo, sentiu-se amargamente mal, deu um beijo passageiro na bochecha de sua mãe que segurava um sorriso e rubor distintos e correu para seu quarto dizendo enquanto sua cabeça latejava “Te amo mãe mas marquei uma partida com o Caio e já tô atrasado, falo com você depois tá”.
Subindo e trancando a porta sentindo seu mal estar aumentando ainda mais apenas escuta de forma abafada o som que ecoa do corredor no pé da escada “Sem problemas filho, mamãe te ama e saiba que você sempre será meu bebê que foi escolhido pelos anjos.”
Sua angústia aumenta ainda mais mesmo depois dessa frase amorosa de sua mãe, seu corpo se arrepia, o melhor a fazer é deitar e com certeza rapidamente tudo isso passaria. Pega sua coberta mais grossa mesmo com calor porque era sua preferida da infância, se cobre dos pés a cabeça, a ansiedade diz que há algo errado mas ele a ignora e tenta pegar no sono.
Seu corpo descansa por algumas horas mas subitamente Leonardo é obrigado a despertar, suando frio, sem sentir a ponta dos dedos e pingando suor. O medo toma sua mente e com ele lapsos de memória de um pesadelo terrível onde sentia seus ossos se despedaçando e furando sua carne.
Uma pressão atinge seu peito e vai subindo até a cabeça então Léo sem aguentar mais arranca sua coberta desesperado com o calor e então vê ao pé da cama, Ele, brilhando em meio a escuridão, a figura que sempre o perseguiu de longe havia o alcançado. Uma voz firme e profunda ecoou em sua mente desesperada e ele sabia que era seu fim: “Tu foras avisado. Nada escapa de mim.” E tudo se iluminou.




