Gabriel Merchak.
O diário online de uma jovem mulher que foi morar na fazenda abandonada de sua família, onde coisas estranhas demais começaram a acontecer. A natureza pode ser sublime mas também muito aterrorizante.
aviso: conto de terror com conteúdo sensível como: sangue, gore e crises mentais.

a história original foi postada no reddit, então a narrativa segue essa linha.
Nunca pensei que escreveria algo aqui. Sempre fui cética demais para acreditar em pessoas aleatórias no reddit. Mas, de verdade, existe algo de errado ou minimamente esquisito acontecendo comigo. E eu não sei se são apenas meus problemas fudendo com a minha mente ou se esta fazenda também tem algo a ver com tudo isso. Só sinto que, se eu não desabafar agora, vou acabar entrando de vez em um estado de paranoia irreversível — se é que eu já não entrei.
Tudo isso pode ser culpa do isolamento. De estar dando de cara com o desconhecido enquanto sou tomada pela solidão. Também pode ser pela sensação aterradora do abandono, ou por sentir, cada dia mais, meus pés presos e minhas canelas rígidas, por estar me afundando vagarosamente no fracasso que meu pai previu anos atrás. Mas todos esses pensamentos recorrentes podem ser só um amontoado de distrações espalhadas pelas estantes da minha mente para tentar me desviar do que eu venho presenciando aqui.
Porra… acho que realmente estou ficando doida.
Por isso vou começar do início. Tentar organizar as ideias e, talvez, eu tenha uma resposta: saber se estou maluca ou se é este lugar que está me enlouquecendo.
Eu soube que era a herdeira da fazenda onde estou agora do jeito mais banal possível. Achei a correspondência oficial de convocação para ir ao cartório enquanto fuçava uma pilha de avisos de despejo e boletos atrasados. Assim que coloquei os olhos naquele envelope de papel pardo, eu pensei que seria mais alguma desgraça judicial caindo nas minhas costas, ainda mais pelo enorme símbolo da prefeitura estampado bem no centro do papel. Só que, felizmente, eu estava enganada. Quando tirei o papel timbrado de dentro do envelope, a primeira palavra que atingiu meus olhos foi: HERANÇA.
Depois da minha alma voltar ao corpo, fui ler com mais cuidado. Era simples e direto: “Seu nome foi declarado elegível como a próxima inventariante da propriedade da família ------------, seguindo os desejos da Sra. Hilda ------------, conforme o testamento arquivado no cartório de notas da cidade de ------- – ---------. Solicitamos o comparecimento imediato para fins de regularização dos bens.”
Basicamente, ninguém quis, então sobrou para mim.
Voltei do cartório naquele mesmo dia pensando em como essa seria minha chance de recomeço, viver um romance bucólico de autoconhecimento e envolta de uma paisagem que poderia estampar qualquer pano de prato de vó.
A única coisa que me inquietava era — Porque caralhos mais ninguém da família quis saber da fazenda — já que parecia um ótimo lugar para passar umas férias de verão e interpretar o conto de fadas que toda minha família ama fingir que vive.
Então, quando voltei para o meu apartamento, afastei algumas caixas da mudança (eu estava sendo despejada), arranquei o plástico que cobria meu sofá e fui ler mais sobre a propriedade.
As terras eram da minha tia-avó. Um pequeno reduto campestre aparentemente tranquilo e isolado na borda da cidade natal da minha família. Um lugarzinho escondido da população de menos de 3000 habitantes, afastado a mais de 20km do centro comercial — realmente um refúgio isolado de tudo e todos.
Até então tudo maravilhoso, não? Foi aí que me deparei com a primeira estranheza. Dentro das páginas que compunham o testamento original estava explicitamente frisado que somente mulheres estavam autorizadas a herdar a fazenda. Achei bem progressista da parte dela.
Mas quando entrei em contato com essa informação, foram despertadas algumas poucas memórias sobre o passado da minha tia-avó e que talvez explicassem essa cláusula tão única.
Nenhum dos membros mais velhos da família gostava de falar muito sobre ela. Tudo o que sei veio de poucos fragmentos ditos em meio a deslizes bêbados dos meus tios e de sussurros silenciosos quando íamos ver os álbuns antigos de fotos da família junto da minha vó.
Assim, o que chegou aos meus ouvidos dizia que a senhora Hilda era uma amante da natureza. Criou um sistema de vida equilibrado junto aos animais da fazenda, que viviam em completa sincronia junto a ela. Não existiam banhos, tosas, cercados ou sacos de ração. Cada bicho entendia o seu papel e, de alguma forma, trabalhavam em conjunto para a manutenção desse ecossistema que, por mais artificial, era cheio de vida.
Quando eu era pequena imaginava ela como uma princesa, encantando cada bicho e planta enquanto dançava pelos campos, mas agora, depois de ler seu testamento, vejo que ela era uma revolucionária da ciência que foi esquecida pelo tempo por não se adequar à sociedade da época.
Ela não teve filhos nem marido. Ao contrário da irmã, minha ancestral direta, que casou com um empresário da cidade vizinha. Daí quando morreu, tudo aqui ficou abandonado, já que ninguém quis abrir mão do conforto urbano. E assim, a fazenda ficou parada no tempo. E bem… cidade grande, conforto, entretenimento, luxos da vida urbana. Nenhum dos novos descendentes quis voltar para o mato, renunciar desses privilégios e viver como ela.
E de verdade, não culpo nenhum deles, só vim parar aqui porque a minha vida financeira está por água abaixo. Eu estou devendo até para a farmácia da esquina. Então aqui, esse meio do nada, é minha última chance. Eu não tinha a opção de continuar na cidade e, literalmente, estava ganhando uma casa enquanto era despejada de outra. Decidi entrar na onda, viveria meu conto de fadas campestre.
Não sei, renascer de alguma forma, achar um sentido, me reconectar. Mas fazer isso por aqui está sendo difícil. Ao mesmo tempo que me sinto feliz e obstinada, do nada meu corpo se arrepia, eu olho para os cantos e me sinto errada. A vontade de abandonar tudo cresce, sinto um impulso de voar para casa do meu pai e dizer que ele sempre esteve certo, só que ainda não tenho uma explicação para isso.
Tudo tinha começado bem! Minha amiga, Vanessa, me ajudou a empacotar o resto dos meus cacarecos enquanto a gente bebia um vinho barato e ela me animava para a viagem de carro de mais de quatro horas que eu enfrentaria para chegar aqui. Eu estava animada, verdadeiramente pensando num recomeço. Quando acabamos de levar tudo para o carro, dei um abraço nela e parti, feliz.
Cheguei ontem. Sozinha. Depois da longa viagem atravessando colinas e mata espessa, fui escorregando entre as curvas das estradas de terra vermelha, tentando encontrar a fazenda, enquanto meu gps falhava mais que a ereção do meu ex. Então, depois de meia hora perambulando, eu fui parar em campos infinitos de eucaliptos, que se dobravam com o vento como se estivessem sussurrando entre si, formando gigantes muros verdes que me guiavam pela pequena estradinha.
A tarde era quente, o sol mesmo que já alaranjado fervia meu braço que pendia apoiado na janela aberta. Depois de mais 40 min na estrada, me negando admitir que estava perdida, eu finalmente cheguei aos portões da propriedade.
Desci do carro e logo que saí fui recepcionada por um calor abafado e muito úmido. A lama lodosa já manchava meus tênis e eu estava me sentindo uma tonta porque não lembrava a última vez que tinha sentido a sensação de terra sobre os pés. Fui andando vagarosamente até o portão, observando todo o entorno, quando fiquei cara a cara com ele. Grande e robusto, percebi que definitivamente não era aberto desde o lançamento do primeiro celular com câmera, ou seja, mil anos atrás.
Com cuidado, para não machucar as mãos, fui tirando as vinhas que cobriam a tranca e travavam o portão junto, e depois de uns minutos muito irritantes eu achei o buraco da fechadura, então finalmente aqueles portões estavam abertos. Voltei para o carro e entrei na minha nova casa.
Acho que uns 2 min depois de passar pelos portões, eu cheguei na casa. No segundo que saí do carro o mesmo sentimento de quando passei pelos portões desceu sobre mim como um véu sutil. Era uma espécie de arrepio, um chiado atrás da nuca que deixava minha visão turva, me sentia mergulhando numa bolha temporal emoldurada por musgo. A vegetação aqui é brilhante, exuberante e densa. A horta brota como se tivesse sido cuidada ontem. As árvores carregadas de frutos te provocam a querer colhê-los e a casa por mais que deteriorada tem um charme quase hipnotizante.
O ar tem cheiro de mato e terra fértil. Parece que carrega um aroma fermentado, como se a vida caminhasse pelos ventos e fertilizasse tudo que toca. O mais próximo que posso descrever esse cheiro é almíscar. Um perfume de vida, suor e presença. Sinto o tempo todo que sou abraçada por isso.
Acho que passar tanto tempo longe da natureza faz a gente esquecer como ela pode mexer com a gente. Não sei se isso é bom ou ruim.
Mas o que mais me tirou do eixo na hora que desci do carro foi quando comecei a observar os animais. Vi as galinhas, os cabritos, porcos, até mesmo patos e alguns cachorros, todos andando entre si com a tranquilidade de um oásis. Nada de acúmulo de fezes, nem coisas quebradas ou plantas pisoteadas… Era como se o próprio ambiente tivesse criado uma rotina para sobreviver e perseverar.
Sei que a natureza se regula e aprende, só que para mim ainda está sendo estranho ver animais domésticos, que pelo menos em tese deveriam depender de humanos, vivendo em tanta harmonia sozinhos.
Tipo, tudo bem eu entendo que eu fui uma garota criada em apartamento mas não era para tudo ser um pouco mais… caótico?
Eu ainda quero verificar se realmente ninguém vem aqui. A última coisa que preciso é um cara aparecendo do nada na minha casa — aí sim tenho certeza de que vou surtar de vez. Porque como já disse, aqui não tem cercas nem muros, só o portão e as paredes da casa. A única coisa que me separa de qualquer um ou qualquer coisa lá fora? Portas e janelas de madeira velha que competem em precariedade com a minha reputação.
Assim que saí do transe de pensamentos e conjecturas sobre a vida desses animais, eu voltei à minha lista de afazeres antes que ficasse de noite. Eu precisava descarregar minhas coisas para dentro da casa e arranjar um lugar para dormir — minhas costas não iam aguentar mais horas naqueles bancos duros do carro.
Aliás, falando mais da casa, ela é bem grande. Na carta do testamento minha tia-avó descrevia como uma humilde residência… mas acho que os conceitos de “humilde” há 100 anos eram bem diferentes.
Me instalei na ala mais antiga, feita em pedra e taipa de pilão, muito mais conservada que a parte mais moderna da frente, construída num estilo vitoriano, já com a madeira meio carcomida pelo tempo e cupins.
Essa parte da casa me atraiu de imediato por conta de sua beleza mais rústica, além de não estar toda ferrada. Quando adrentei a casa eu percebi, além das camadas intermináveis de pó e do cheiro de bolor, que os cômodos de pedra e taipa faziam parte da modulação original e simples que fora posteriormente expandida com os novos cômodos em estilo vitoriano.
O centro “original” da casa é formado pela sala de jantar, cozinha e pelos quartos, que ficam na lateral da casa e estão trancados. O único que estava aberto era o da minha tia-avó, mas não encontrei nenhuma chave lá.
Existe também um segundo andar, eu ainda não explorei, não sei o que deve ter lá em cima mas claramente foi feito após a construção original — desisti de subir porque as tábuas da escada rangeram tão alto que pareciam um grito de repreenção para eu descer… e por mais que seja charmosa a casa me dá um certo calafrio amedrontador, decidi não desafiá-la por enquanto.
Então, depois desse pequeno momento de olhadinha pela casa, decidi ir logo para o quarto aberto e ver se ali poderia ser o lugar da minha primeira noite de descanso. Entrar no quarto foi como pisar num cenário de série de época. Tudo estava no seu lugar. O armário, a cômoda, o espelho com moldura gasta, os vários livros encostados na estante.
Sentia que a qualquer momento ela iria passar pela porta e se deitar sobre os lençóis bordados — esse pensamento me arrepia até agora — se eu paro para observar demais os detalhes do quarto começo a imaginar a rotina dela. Quem ela era? O que fazia no dia a dia? Mais alguém vivia aqui? E marido, teve? Parece que não. Será que viveu sempre sozinha?
Essa espiral de pensamentos inquietantes é muito difícil de sair.
Tentando me desprender das indagações sobre o passado eu foquei em mim mesma novamente, dei uma sacudida e fui abrir a janela, emperrou um pouco mas consegui. Com a missão cumprida de achar um cantinho para descansar, eu voltei até o carro. Peguei a primeira caixa, com as coisas mais importantes (documentos, dinheiro, cartões…) e fui pedir ajuda do meu velho amigo, meu mais fiel escudeiro, o colchão inflável — porque jamais deitaria na cama dela.
Eu ia pegar mais algumas coisas, no entanto percebi que já estava quase de noite e queria aproveitar o restinho de luz para arrumar o quarto. Então peguei uma sacola que estava com alguns snacks, uma lamparina de pilha, um paninho e produto de limpeza.
Tranquei o carro, guardei a chave no bolso e entrei. Depois também tranquei a porta da sala, vi que nenhuma janela estava aberta, não que isso me garantisse muita segurança, e parti para o quarto.
Quando entrei senti novamente aquele ruído desconfortável agitando os cabelos da minha nuca mas tentei ignorar e parti para o meu plano — arrumar um lugar para o meu colchão. Analisando um pouco mais a disposição dos móveis eu vi que se afastasse levemente a cama e uma das prateleiras para o lado eu ia conseguir encaixar meu colchão no cantinho do quarto, coladinho na penteadeira.
Deu certo, mesmo fazendo tudo na penumbra. Dei uma limpada rápida do chão e coloquei meus lençóis e travesseiro ajeitados para deitar. Tranquei a porta do quarto, a chave estava na tranca da parte de dentro, fechei a janela e fui dormir.
Acordei hoje de manhã com alguns raios de sol entrando pela persiana da janela e um cheiro de grama molhada. Isso me deu um grande ímpeto de ser produtiva.
A luz sutil e dourada do sol entrando pelas frestas da veneziana, aquela luz que parece carregar um pó mágico, dançando no ar como se o próprio dia estivesse sussurrando um segredo — isso me fez despertar sorrindo. Levantei, ajeitando a camiseta larga que uso para dormir, abri a janela e peguei a sacola com comida e fui para cozinha preparar um café da manhã.
A cozinha é enorme. Um dos maiores cômodos da casa. O centro é dominado por uma ilha grandiosa, ladeada por pequenas portinhas de madeira azul-marinho, descascadas pelo tempo, mas ainda assim muito charmosas. Deixei a sacola na bancada enquanto o sol me banhava, a luz vazava da grande janela na lateral da cozinha e atingia a pia no centro da ilha, curiosa fui ver se a água funcionava.
Toquei na pia. Girei a torneira sem esperança e, para minha surpresa, a água jorrou.
No início, ela saiu carregando ferrugem, lodo, insetos que eu nem reconheço, e um cheiro pungente de metal molhado e algo apodrecido. Mas depois de uns segundos engasgando, ela finalmente ficou limpa e constante. Era uma água cristalina, quase brilhante. Fiquei esperando um entupimento, ainda desacreditada, mas quando abri uma das portinhas abaixo da pia, vi um cano largo de ferro, era grosso como meu punho. Pensei: "antes as coisas eram feitas para durar". E dei risada sozinha.
Passei a mão na água. Fresca, suave e pura. “Água de poço da mais fina”. Me animei ainda mais para começar o dia.
Fechei a torneira, tirei um snickers da sacola e fui buscar algumas das coisas que trouxe no carro, enquanto aproveitava meu docinho. Tinha que trazer as caixas com: comida, panos de prato, esponjas, outros utensílios de limpeza e cozinha, até alguns temperos — que estavam socados no fundo da despensa do meu antigo apartamento. Eu precisava dessas coisas porque senti que aquela cozinha tão linda merecia algo melhor do que bolachas, chocolate e café instantâneo.
Eu ia fazer um café da manhã de verdade.
Também fui pegar talheres, já que os tinha esquecido de pegá-los ontem e precisaria deles para cortar o pão porque infelizmente não sou filha do wolverine.
Quando estava tentando entrar pela porta lateral da cozinha, que dava acesso ao pátio, a segunda coisa estranha desse lugar me atingiu… um porco. Ele tinha uma grande mancha branca na cara, era enorme e parecia bem velho. Ficou me encarando por um longo tempo enquanto eu tentava, fracassadamente, abrir a porta emperrada sem usar as mãos, as quais seguravam com dificuldade uma das caixas de comida.
Até que eu desisti da ideia e coloquei a caixa no chão.
No exato instante que fiz isso o porco veio próximo a mim e com uma facilidade inquietante empurrou a porta em um solavanco, usando seu focinho cheio de cicatrizes, e logo indo embora. Eu de verdade acho que alguém vivia aqui. Porque não é possível que esse bicho só entendeu o que eu queria.
Achei fofo mesmo que um pouco perturbador, eu esqueço como os porcos podem ser assustadoramente grandes e fortes. Peguei novamente a caixa e a coloquei na bancada, então fui buscar as outras, mas dessa vez me certificando de travar a porta aberta usando uma pedra.
Quando finalmente terminei de trazer tudo, fiz uma limpa rápida na bancada e preparei um lanche, tudo isso enquanto observava os animais pela enorme janela que ficava acima da pia principal.
A luz solar que atravessava a janela iluminava a cortina bordada lindamente. Mesmo rasgada e desgastada, ela continua bonita. Muito delicada. As rendas filtravam o sol, criando desenhos suaves de luz e sombra por toda a cozinha. Foi um daqueles momentos plácidos, de uma beleza tão singela, que você se sente grato por estar vivo. Então me aproximei da janela, querendo ver melhor o quintal e jogar um pouco de sol no rosto.
Foi aí que eu vi.
As aranhas. Eram pequenas e castanhas, com abdômens finos como agulhas de costura e pernas longas, muito ágeis.
No início, de longe, eram só pequenos pontos de sujeira sobre a cortina puída. Mas quando percebi o que eram, achei que estavam ali por conta do tecido velho, fazendo seu ninho. Só que ao chegar bem perto, percebi algo... bizarro. Elas estavam se movendo coordenadamente.
Trabalhando juntas.
E o mais me deixou perplexa: estavam tecendo a mesma teia. Uma única teia coletiva, espiralada, simétrica e fluida. Como se dançassem em grupo entre os fios. E o padrão... era simples mas quase idêntico ao da cortina bordada. Elas estavam copiando a renda de algum jeito. O desenho da renda era formado por pequenos rocailles, flores, folhagens. E elas os reproduziam com perfeição.
Na hora, minha mente travou. Aranhas fazem isso? Elas têm memória visual? Conseguem replicar padrões humanos? Como elas se comunicavam para fazer isso? Aquilo era algum tipo de instinto coletivo? Ou estavam, de alguma jeito, aprendendo.
Pensei em pegar o celular e tirar uma foto. Mas algo me fez recuar. Como se fotografar aquilo fosse... profanar de alguma forma.
Então voltei a olhar para fora, ainda em um leve estado de entorpecimento por conta do que eu tinha acabado de presenciar. Minha mente estava tentando fugir daquilo e desesperada para encontrar algo normal. Foi aí que me dei conta, eu estava sendo observada todo aquele tempo.
Enquanto meus olhos se arregalavam para o trabalho meticuloso dos aracnídeos, outros animais me observavam à distância assim como eu estava fazendo. Um grupo de gansos estava me encarando através da janela, quase nos limites do pátio da casa, bem próximos aos arbustos que emolduravam o caminho para uma horta. Todos eles estavam com os pescoços completamente esticados, olhos perpendiculares a mim, sem desviar por um único segundo. Estáticos.
Aqueles olhos todos fixos em mim me deixaram paralisada… o que eles queriam? Não grasnavam, nem bicavam, não existia nem uma mínima agitação de asas, estavam imóveis. Me olhando. Porra, foi bizarro demais, eu me senti acoada por bichos que não chegavam a altura do meu joelho, mas de verdade eu não consigo descrever como aqueles olhares pareciam analíticos e profundos desmais para um simples animal.
Depois de uns minutos, eu acho, me aproximei da janela e os olhei mais de perto. Então, como num passe de mágica, eles decidiram se mexer e foram em fila descendo o caminho da horta — sumindo nos arbustos enquanto abanavam os traseiros penudos.
Assim que o último deles sumiu, fui invadida por uma mistura de alívio e graça, acompanhada por uma leve pontada de vergonha por me amedrontar com aves que rebolavam ao andar e viviam de comer legumes e minhocas. Ainda assim, um instinto permaneceu — fechei as cortinas com cuidado, tentando não perturbar as pequenas tecelãs que trabalhavam sem parar.
Desisti do meu café especial, fui terminar meu sanduíche e seguir com o dia, tentando parar de pensar em tudo que vi.
Voltei para o quarto andando a passos curtos e preguiçosos, observando cada canto enquanto tentava calcular quantas toneladas de poeira que estariam acumuladas por toda a casa.
Pisando dentro do quarto, continuei o meu processo de avaliação analítica — e levemente desesperadora — ao observar a sujeira incrustada em cada objeto, sujeira essa que em algum momento seria esfregada pelas minhas mãos, por muito tempo. Mas então minha mente escorregou da sofreguidão ansiosa de uma dona de casa preguiçosa e caiu novamente no abismo das aranhas e dos olhos tremeluzentes dos gansos.
Naquele instante, decidi começar uma limpeza.
Preciso me distrair — falei em voz alta, varrendo o quarto com o olhar, enquanto o eco da minha própria voz se misturava ao pó suspenso no ar infestado de ácaros.
Dei a última mordida no meu lanche e parti para a limpeza.
Comecei pela organização, trazendo todas as caixas que estavam faltando para dentro da casa. A maioria deixei no quarto onde estou instalada; outras, as de comida e produtos de limpeza, deixei na cozinha. Depois disso, fui abrir as janelas dos cômodos que de alguma forma estou “habitando”. Não consegui abrir todas, porque mesmo estando deterioradas as trancas enferrujadas ainda são surpreendentemente resistentes. Mas já foi o suficiente para trazer um pouco de ar novo para dentro.
Com as janelas abertas e sentindo meus pulmões trabalharem mais suavemente, parti para a faxina.
Afastei e empilhei as caixas do quarto num canto e comecei passando pano no chão. Logo depois, segui para as prateleiras e a penteadeira. Até passei pano, com um pouco de produto, nas portas empoeiradas do armário — que ainda não tive coragem de abrir.
Sentindo o quarto levemente mais limpo, fui para a cozinha.
Lá, a limpeza foi mais robusta, já que o chão de ladrilhos me permitia ser um pouco mais “agressiva” nos métodos. Peguei minha vassoura, o alvejante e bastante água. Toda aquela crosta, formada por camadas infinitas de pó e gordura, ia finalmente dar adeus ao piso da cozinha.
Depois de algumas horas esfregando décadas de sujeira, finalmente me senti satisfeita. Passei um pano para secar tudo e observei, orgulhosa, o resultado antes de seguir com a limpeza. As próximas vítimas foram os batentes, armários e as prateleiras — que, descrevendo gentilmente, estavam imundos.
Nos armários e nas prateleiras, por mais que muito sujos, consegui fazer uma limpeza decente. Já nos batentes das portas foi diferente. Depois de muito esfregar e, vagarosamente, remover as camadas de podridão que cobriram aquelas madeiras durante décadas, a decepção me atingiu. Todos os cantos estão tomados por uma mancha preta e quase aveludada — talvez limo ou mofo — e, mesmo após todos os produtos possíveis, nada mudou. Acho que se impregnou até o fundo da madeira.
Quando finalmente larguei mão de remover as manchas pretas da madeira, eu voltei para o quarto da minha tia-vó. Estava entardecendo.
Entrei, troquei rapidamente de roupa — não aguentava mais sentir o cheiro de velhice e ar mofado agarrado na minha pele — e me sentei no meu velho colchão inflável, sentindo-o murchar levemente conforme eu me assentava. Nesse pequeno momento de calmaria, e com maior clareza após a limpeza, pude olhar o quarto mais minuciosamente, sem me focar apenas na sujeira que o encobria.
Não existe nada de bizarro ou fora do comum aqui dentro, ainda assim o ambiente está impregnado de uma aura estranha. É algo que flerta com a morbidez sinistra, mas se mantém distante o suficiente para insinuar apenas uma sensação de incômodo… algo denso e viscoso, que rasteja à espreita.
Essa presença estranha e silenciosa se torna cada vez mais palpável a cada detalhe que reparo. Em alguns momentos, sinto que minha tia-vó vai passar pela porta, sentar à penteadeira e ler o livro ainda aberto ao lado do espelho. É impossível escapar dessa sensação — da expectativa perturbadora de esperar alguém que nunca virá — porque, mesmo quando fecho os olhos e me concentro apenas nos meus pensamentos, a casa continua ali: presente, vigilante. Se manifestando de um jeito muito peculiar — pelo cheiro.
De todos os cômodos por onde passei, esse quarto é o que tem o cheiro mais forte, que impregna nas narinas e não me deixa esquecer, por sequer um segundo, onde estou.
O mais próximo que posso descrever é um cheiro quente, quase vivo. Um vapor densamente úmido e sufocante. A cada vez que respiro, essa névoa densa invade meus pulmões e sobe à mente. Num lapso, ainda suspensa no pó, sinto que posso tocar tudo o que a casa resguarda silenciosamente, mas logo tudo se esvai, junto com a poeira densa e meu espirro seco.
Assim que eu respiro de novo, o aroma é leve. Um cheiro de algo velho e mofado, como quando você entra na biblioteca e vai na sessão de “clássicos”. Só que depois, vagarosamente, outros tons vão invadindo os sentidos. Plantas pisadas afundadas na lama, algo podre e de um leve ranço adocicado.
E, especificamente neste quarto, ainda há uma camada a mais, sobrepondo todas as outras — algo ardente e aldeídico, um odor parecido com naftalina, suavizado pelo cheiro de flores secas.
Talvez fosse o perfume dela… mais uma das memórias presas aqui.
Depois de uma sucessão interminável entre o fechar dos olhos e o encarar do quarto, eu desisti.
Ajustei um pouco a postura e me arrastei, ainda sentada no colchão, até sentir a parede gelada tocando minhas costas e arrepiar meu pescoço. Depois de me ajeitar numa posição confortável, voltei a observar com mais propósito, aceitando que não conseguiria dissipar a sensação de inadequação que sinto dentro dessa casa.
Os lençóis ainda estão dobrados, os vidros de perfume ainda com líquido, o livro ainda aberto.
Estava tudo intocado até minha chegada. Mas ontem não tinha sido tão difícil, eu estava eufórica e o véu da noite cobriu meus sentidos para todos os detalhes que marcavam a presença dela, a presença da casa. O ar abafado que escapa das paredes ainda não tinha se assentado sobre minha pele.
Só fui reparar hoje, com a luz do dia e mais clareza, outros detalhes despercebidos, como o fato do piso do quarto ser bem diferente do resto. É feito de uma madeira mais escura, que se arranhou facilmente com o arrastar dos móveis. Mais uma coisa que colocou um “porquê” na minha mente.
Fiquei por mais um tempo refletindo, mas sem chegar a nenhuma conclusão. Quando dei por mim, já era de noite. Então fui pegar meu fogãozinho portátil para esquentar água e tomar banho antes de fazer o jantar.
Foi estranho… mas acho que nada demais. Deve ter sido só a sensação esquisita de tomar banho num lugar que parece um cenário de filme de época — e que, por algum motivo, não tinha espelho. Ainda bem que trouxe o meu, prevenidas sempre vencem.
Saí do banho com o corpo e a mente mais frescos e fui fazer um macarrão. Estava com preguiça, e uma massa à bolognese seria o equilíbrio ideal entre meu cansaço e o meu senso de autojulgamento, que jamais me permitiria comer miojo por mais uma semana seguida.
Foi até rápido — mais do que eu esperava, levando em conta a quantidade de semanas sem prática. O gosto ficou mediano, mas serviu bem ao seu propósito de ser consumido enquanto eu estava sentada no meu colchão semi-murcho, respondendo uns emails sobre um freela de design.
Quando terminei meu prato michelin, já me sentia pronta para dormir. Levantei e deixei o prato sobre a penteadeira. Ao me deitar de novo, vi um bloquinho de anotações antigas da minha tia-avó em cima da mesinha de cabeceira. Catei para ler, tentando usá-lo para tentar cair no sono — meus olhos já estavam cansados da tela do celular. O caderninho não tinha nada demais, só listas de plantas e anotações do dia a dia.
Me deitei por completo e ergui os braços no ar, ainda segurando o caderno na mão, como se o oferecesse ao teto entorpecido pela noite. As palavras dançavam diante dos meus olhos — sinuosas, trêmulas, quase ilegíveis — uma caligrafia era agitada e desleixada, própria de anotações banais. No entanto, sua forma descuidada cumpria bem seu papel de induzir o sono.
Já meio sonolenta, percebi pela minha visão periférica que a janela permanecia entreaberta. O vento sorrateiro trazia consigo seu hálito úmido e terroso, o qual eu já estava me habituando, e junto dele uma brisa gelada carregada que se contorcia dentro do quarto como se a casa respirasse junto a mim.
Já estremecida me levantei para descer as persianas e fechar as cortinas.
Foi o que aconteceu nesse momento que me fez decidir registrar tudo o que vivi desde que cheguei a esta fazenda.
No instante que eu toquei nas cortinas grossas de algodão, um calafrio cortante subiu pela minha espinha, me arrepiando todo corpo. Meu couro cabeludo ardia em pulsos de estática.
Olhei através da janela, buscando na morbidez escura afora o que teria acendido meus instintos de perigo tão intensamente. E lá estava ele.
O porco velho.
Enorme. Estático. Uma sombra viva destacada por sua mancha prateada à luz do luar, na linha da das árvores, onde a luz se negava a tocar. Não fazia um barulho sequer.
Duas patas fincadas na árvore, pescoço rígido — ele estava atento.
Mesmo à distância, eu via seus olhos cravados nos meus — duas esferas negras e turvas brilhando na escuridão, refletindo uma consciência que não devia existir ali. Era de uma precisão quase humana, como se me analisasse… avaliando cada reação. Me senti invadida. EU era o alimento em alí.
Era o tipo de olhar que um professor lança para um aluno prestes a mentir. O tipo de olhar que atravessa a pele, faz tremer os ossos e fraquejar a mente. O olhar de quem sabe o que você está pensando.
Minha respiração ficou presa na garganta, eu estava sufocando dentro da minha própria mente. Eu sei que parece ridículo “é a porra de um porco”, mas o olhar dos gansos voltou à minha mente, e minhas pernas fraquejaram. Aquilo não era normal… não podia ser natural.
Bati as janelas, puxei as cortinas às pressas e me afastei. Fiquei em pé no centro do quarto, apoiada sobre minhas pernas dormentes, esperando qualquer som — um grunhido, galhos quebrando, o arrastar de patas pesadas sobre a terra.
Mas nada veio.
Eu... não sei o que está acontecendo. Pode ser só o isolamento me corroendo ou a falta de costume com animais ou os dois juntos. Pelo menos é o que eu tento dizer a mim mesma.
Mas eu queria saber se alguém já viu algo assim.
Talvez eu esteja exagerando, eu sei. Nunca tive contato com animais, nasci no centro de uma cidade grande, cheia de luzes e prédios altos. Minhas interações com animais se reservavam a pugs acima do peso e pombos barulhentos.
Eu entendo que os porcos podem ser até mais inteligentes que muitos cachorros, eu vi discovery channel, só que… aquela porra de olhar era diferente de qualquer coisa que já vi num animal. O brilho daquelas órbitas pretas, em meio a escuridão, ainda está martelando na minha cabeça enquanto escrevo isso.
Eu sinto que se eu abrir a janela agora ele vai estar me encarando. Parece que eu consigo ouvir a respiração dele do outro lado da janela, sentir o cheiro dele se misturando ao pó do ar. Meu celular está tremendo nas minhas mãos, elas estão mais geladas, mas há suor, há umidade, as paredes também suam — gotas gélidas que escorrem lentamente até o chão — tudo parece respirar.
Sinto um frio bizarro, parece que a janela está escancarada, e mesmo assim eu não consigo levantar para pegar uma coberta na caixa que está ao meu lado. É como se eu estivesse presa sob um cobertor de aço, me prendendo a esse colchão velho e me sufocando aos poucos.
Eu posso estar sendo paranoica, desvairada — “a menina da cidade, sensível demais para o meio do mato.” Eu tento me convencer de que são só animais curiosos, provavelmente nunca nem viram uma pessoa antes. Mas há algo em mim — pequeno, teimoso e aflito — que sussurra, com uma certeza que eu não quero ouvir: eu não estou sozinha.
Vou tentar dormir, preciso descansar um pouco. Toda essa merda vai ficar para o eu de amanhã lidar, senão acho que vou engasgar com meu próprio coração. Eu estou conseguindo ouvir os batimentos pulsando cada vez mais rápido, esse som está me deixando louca.
Eu preciso de respostas, mas não aguento mais, por hoje chega. Preciso fechar os olhos e esquecer que existo por pelo menos algumas horas, sair desse estado de hipervigilância.
Amanhã vou continuar a procurar pelas chaves e talvez encontre alguma coisa relevante para entender tudo isso.
Até lá, se alguém tiver alguma explicação para o que está acontecendo — por favor, eu imploro — só me diga.













