Gabriel Merchak.
The most visceral gift of all, to unite the family in the true spirit of Easter.
warning: horror story with sensitive content such as: gore and mutilation.

Era madrugada de páscoa e um menininho acordou com um som estranho vindo de sua sala, no andar debaixo. Estava de madrugada, tudo ainda na penumbra, no entanto o coração corajoso de Bartolomeu batia rápido e o enchia de coragem — Será o coelho da páscoa? Foi o pensamento que arrepiou sua espinha e fez com que ele pulasse da cama de sopetão.
Colocou os pés descalços no chão, sentiu o chão de madeira antiga, abriu a porta com o cuidado que nunca teve e despontou para o corredor. Começou a descer as escadas em completo silêncio, as pontas de seus pés atingiam o assoalho com a delicadeza de uma bailarina, ele não podia perder sua chance de ver o que tanto almejava, o coelho.
Foi descendo os degraus, segurando no corrimão com força, pressionando fortemente a madeira envernizada contra seus pequenos dedos que suavam muito, fazendo-o perder a firmeza e aumentando ainda mais sua ansiedade. Assim que chegou na metade da escada pode espiar de cima, olhando por entre as finas colunas de madeira do corrimão e assim avistando com seus olhinhos o que parecia impossível.
Um grande coelho humanoide, patas enormes e felpudas, uma pelagem espessa e branca como neve que o cobria por inteiro como um grande casaco. Suas orelhas se erguiam como chifres, imponentes e pontudas, seus olhos brilhavam como rubis na escuridão, fixos em algo que Bartolomeu não podia ver.
Mas no momento em que o coelho se moveu para outra parte da sala, com cuidado e escaneando cada centímetro do ambiente com olhos ágeis, o garoto percebeu que o coelho carregava consigo uma bolsa, da qual saiam inúmeros pequenos ovos — envoltos em um belo tecido xadrez azul e branco com leves detalhes difíceis de perceber na penumbra que sustentavam um rosa sutil — aquela bela criatura procurava o local perfeito para por cada ovo com cuidado.
Bartolomeu estava completamente maravilhado. Queria correr até ele, abraçá-lo, agradecer pelos presentes, no entanto sabia que criaturas assim eram tímidas. Apenas um movimento errado e aquele belo ser o escutaria e fugiria rapidamente para o bosque ao fundo do condomínio que o garoto morava. Então, ele apenas observou, encantado, enquanto o coelho continuava sua tarefa.
Nesse tempo o garoto percebeu as grandes pegadas deixadas a cada passo daquele ser feito de pura magia — pegadas essas que a distância em meio a névoa da escuridão pareciam ser feitas de chocolate derretido e partiam da cozinha que levava para uma área externa. Seus olhos não conseguiam se desvencilhar do coelho, nunca esteve tão feliz, até que algo aconteceu… o coelho se virou as orelhas em sua direção — sem perceber o menino havia começado a bater seus dedos contra a madeira lembrando da melodia da cantiga de páscoa favorita de sua mãe.
No segundo que se deu conta Bartolomeu se empurrou para cima dos degraus e escondeu-se atrás da parede das escadas, não poderia deixar que o coelho o descobrisse ali, ele sabia que era contra as regras as crianças verem seres mágicos, todos os filmes contavam sobre isso, certamente ele levaria uma bronca.
Foram segundos apreensivos até que finalmente ouviu os passos macios do grande coelho irem para o outro lado da sala e alguns minutos depois o som da porta que dava para o jardim se abrindo e logo depois fechando com delicadeza. Teve muita vontade de olhar novamente, mas teve receio de levar uma represália do coelho tão tensa quanto da vez que sua mãe lhe deu uma bronca na frente da família toda por ter jogado cola glitter na cabeça de sua prima.
Foi correndo para cima, cheio de incertezas e povoado pelas possibilidades maravilhosas que o aguardavam na sala no dia seguinte. Passou pela porta de seu quarto, ainda entreaberta, e pulou na cama. Se agitava feito doido, estava tão enérgico com tudo que havia vivido mas não podia fazer barulho, seu corpo não parava quieto mesmo com o cansaço causado pelo esforço de seu coração que batia galopante até aquele momento.
No entanto ele sabia que deveria dormir pois naquele mesmo dia algumas horas depois sua mãe o estaria esperando para caça aos ovos, que seria ainda mais especial esse ano porque ele já saberia onde todos… ou pelo menos quase todos os chocolates e guloseimas estariam escondidos e sua mãe ficaria completamente embasbacada e lançaria sua famosa risada brincalhona de quando estava orgulhosa dele, acompanhada pela infame frase — Baba bartô, o melhor, sensacional.
Com um grande sorriso no rosto, Bartolomeu adormeceu, enquanto cantarolava para si mesmo a cantiga de páscoa favorita de sua mãe. O pequeno garoto entrou no mundo dos sonhos levado por cachoeiras de chocolate, montes de marshmallow e pequenos coelhinhos saltitantes. Então mesmo com tanta excitação conseguiu adormecer em paz.
Já seu despertar foi brutal.
Gritos.
Era a voz de sua mãe, mas de uma forma que ele nunca havia escutado. Uma mistura de terror, dor e desespero.
Os gritos vinham do andar de baixo, sua mente já estava agitada e confusa, mas seu corpo demorou a despertar… a gritaria diminuiu quando ele ouviu passos pesados descendo as escadas. A sua mente ainda estava lenta mas recebia um alarme constante que dizia “Você precisa ajudar a mamãe”.
Levantou de sobressalto depois que a adrenalina atingiu seus músculos, seus pezinhos nem sentiram o piso gelado decorrente da noite fria, apenas correu para as escadas empurrando a porta com o ombro, que ficaria certamente dolorido depois.
Quando atingiu os primeiros degraus não exitou e correu galopante quase pulando os degraus para acudir sua mãe.
Assim que o pequeno desesperado chegou ao penúltimo degrau e pulou para atingir o mais rápido o corredor que o levaria a sala, seus dedos não tocaram o chão. Ele havia sido agarrado.
Braços longos e fortes o levaram ao ar, bem mais alto do que qualquer salto que já tivesse dado, bem mais rápido e longe do que o coelho jamais conseguiria. Bartolomeu estava em completo pânico, seu subconsciente ainda povoado por coelhos sofreu do mesmo terror e agora a pobre criança visualizava terríveis coelhos sanguinários de dentes pontiagudos que o agarravam com tanta força quanto aqueles braços.
Trancou os olhos e tentou fugir daquela realidade, no entanto seus ouvidos estavam aguçados demais, ouvia uma respiração pesada, o choro moroso da mamãe misturado aos ruídos do noticiário da manhã. O caos de tantas sensações não o deixavam distanciar-se da realidade que o amedrontava.
As bestas o iam engolir.
Foi aí que ouviu uma coisa que silenciou todas as outras, a voz risonha do papai. Então, aos poucos, ainda com certo receio, Bartolomeu abriu os olhos e viu seu herói, segurando-o no ar, aquele era “o maior policial, o número um da divisão oeste”. O menino estava tão feliz que não percebeu que o sorriso daquele homem robusto e forte escondia o maior desespero que aquele cara sentiu em mais de 12 anos de profissão.
Respirando fundo seu pai disse ao pequeno garoto o largando no chão suavemente:
— "Garotão! Você quase me deu um susto!"
Papai o carregou para o quintal, rindo, mas com seus olhos vidrados, fixos no corredor que virava para sala, onde daqui a alguns minutos policiais estariam entrando e saindo.
"Vamos brincar aqui fora, hein? A mamãe se cortou com um vaso procurando os ovos, tá tudo uma bagunça lá dentro. Certeza que tem mais ovos por aqui"
Bartolomeu até tentou questionar seu pai, mas foi convencido por ele que era melhor deixar sua mãe fazer os curativos necessários, curar os dodóis e que já já ela estaria com eles para brincadeira.
Papai com dificuldade sustentava a cena de momento brincalhão com Bartolomeu e implorava para que qualquer que fosse o necessário a ser feito para segurança de sua família estivesse em andamento naquela cena diabólica da sala.
Quando os policiais chegaram, sem resistência ou sequer uma única palavra, Amanda os deixou entrar. Recoberta pelas preces de seu marido, a mãe repousava na única cadeira ainda limpa, protegida por um plástico de segurança.
A desolação manchava seus olhos completamente e era desobstruída apenas quando por um acidente terrivel, entre passagens de policiais e flashes de fotos, recolhimento de provas e olhares de canto de olho, sua visão era dragada para a horrenda cena que a fez gritar ela era sequestrada para a madrugada macabra que havia vivido poucas horas antes, era um looping torturante.
Felpudo, delicado e morto.
Ela havia acordado cedo para finalmente preparar a caça aos ovos para seu menino, tudo já estava planejado desde o fim de semana passado e o marido finalmente poderia estar em casa para participar da brincadeira depois de 4 anos. Tudo estava escondido dentro de caixas dentro dos armários altos da cozinha, os quais o espertinho Bartolomeu não conseguiria bisbilhotar antes da hora certa.
Foi correndo a passos largos na ansiedade de preparar tudo para seu pequeno amor, mas ainda sim pisando leve para não gerar grandes barulhos. E assim que chegou ao corredor, parou.
Sangue, tripas, mutilação, ossos.
Enormes pegadas de coelho criavam uma linha vinda da porta da cozinha e seguia espaçadamente para a sala. Seu marido não havia a avisado de que faria tal surpresa para seu menino… uma descoberta que a deveria alegrar, um esforço especial de seu marido, a deixou completamente tensa.
Arrepios, medo, suor gélido escorrendo pela espinha.
Deslizou pelo corredor com cautela, se aproximando de uma das pegadas.
Sangue, tripas, mutilação, ossos.
A mancha de sangue estava seca mas ainda levemente viscosa e se infiltrava entre os veios do assoalho assim como o medo tomava os pensamentos dela. O desespero progressivamente subindo, subindo… subindo; seu coração bombeando sangue fervente para a cabeça.
Ela iria explodir, sua mente não compreendia o que estava acontecendo.
Agarrou o próprio rosto tampando sua boca para prender o grito que teimava em querer escapar, mas ela se mantinha rígida, com um único pensamento — Seu filho precisa de você.
Os pensamentos com dificuldade cambaleante se organizavam em sua mente, os sons no andar de baixo que ouvira horas atrás não era seu marido indo buscar água como normalmente fazia, algo ou alguém os teriam feito e ela precisava tomar cuidado e se manter atenta. Tudo era ameaçador e um possível risco para ela e seu filho. Monstros a olhavam pelas sombras e ela se sentia como uma pequena lebre enclausurada na toca de lobos famintos em meio ao longo inverno.
Amanda precisava decidir para onde ir. Seu rosto, que pingava finas gotas de suor, dirigia-se inconstante entre as duas possibilidades… seguir para a cozinha, em direção a área externa, ou adentrar a escuridão da sala.
Precisava decidir logo antes que você tarde demais, foi em direção a sala. Agachada e quase petrificada pelo medo a mãe seguia com obstinação para sala, seus pulmões pareciam estar prestes a serem esmagados por suas costelas, o ar era denso e ferroso.
Olhando a cada segundo para suas costas foi seguindo encostada na parede em direção a sala, acompanhando a trilha macabra demarcada pelo invasor. Então, mesmo com sua mente latejando, conseguiu perceber um cheiro suave e familiar, suas velas de chocolate… estavam acesas e espalhando seu cheiro por toda casa.
Alguém poderia estar a esperando, pensou em voltar para a cozinha e pegar uma faca mas sentia que se esperasse mais ela poderia ser emboscada, decidiu pelo elemento surpresa.
Correu. Iria atacar com sua vida para defender seu pequeno.
Só que quando chegou a sala não havia nada a se fazer. Ela congelou em puro choque.
Pequenas trouxas feitas de trapos azul xadrez amarradas com fios embolados de cabelo, suas bases estavam ensopadas em sangue, manchas se alastraram vagarosamente pelo tecido grosso. Existia um ovo repousando em cada canto daquele ambiente, mesmo onde seu marido, um homem de 1,96 de altura jamais alcançaria sem o auxílio de uma escada.
Tremendo ela seguiu, olhando para todos os cantos, sentindo que a qualquer momento seria agarrada e o pior aconteceria a ela. Chegou a um dos ovos e com o resto de coragem que restava em seu corpo desembrulhou uma das menores trouxas, que estava em cima do encosto do sofá já no meio da sala.
O embrulho se desfez com facilidade, parecia até programado para tal e assim revelou algo: pequeno, molesco e deformado. Uma pasta amorfa com pedaços condensados e pequenas partes laceradas e trançadas que se enrolavam em um objeto ainda menor em seu interior.
Esta pequena bola ovalada e viscosa depois de liberta do seu invólucro rolou pela beira do sofá se espatifando no assoalho escuro ao pé de Amanda, respingando gotas de algo salobro e denso, revelando seu interior nefasto. Uma parte de um olho, de um vermelho distinto, iris clara e brilhante mas sem o alvorecer da vida.
No instante que ela sentiu as gotas viscosas entre seus dedos teve apenas o reflexo de tapar a boca mas inevitavelmente o vômito escapou de sua garganta, atravessando profusamente seus dedos e atingindo o chão cobrindo quase completamente o que havia a causado o gatilho.
Estava tonta, sentia que desmaiaria a qualquer momento. Com tudo sua mente mantinha-se em um uníssono — Você é mãe, faça tudo para protegê-lo.
Assim, tentando em vão se manter discreta e silenciosa após sua crise, olhou para todos os cantos tentando se orientar com a luz crepitante das velas que lançavam seu cheiro, agora nauseante, por toda sala, tentando discernir a realidade por dentre as sombras distorcidas. Continuou a seguir aquelas pegadas diabólicas.
Tentando ignorar os tantos outros ovos que se apresentavam em inúmeros tamanhos pelo caminho ela chegava ao fim das pegadas, atrás do maior vaso de plantas da sala onde repousava uma bela monstera que naquele momento estava coberta por um estranho piche misturado com placas de sangue espesso e seco.
Contrariando todos seus instintos e com um medo indescritível de encontrar seu pequeno garoto atrás daquele vaso ela o moveu para o lado com pesar. Assim revelando o trabalho sádico e perverso do invasor sombrio de seu lar.
Era felpudo, delicado e morto.
Maldade.
Sangue, tripas, mutilação, ossos.
A ânsia voltou como um reflexo mas não havia mais nada para sair, a mãe apenas agonizou em um grito calado vendo a criatura mutilada a sua frente, feita satiricamente para matar não só a animal mas a alma de qualquer um que colocasse seus olhos nela.
Um coelho branco, seu pelo ensanguentado e ralo, o corpo recoberto por lacerações e protusões inchadas. Seu delicado ventre profanado por um enorme rasgo, que estava com as bordas costuradas com uma trança de fios de cabelo, o animal mais parecia com um saco de presentes esvaziado.
Era dali de dentro que vinham todos os pequenos ovos.
Gritou. Gritou de desespero, gritou como se fosse ela ali, gritou por sentir a morte de perto, gritou por sentir que seria a próxima, gritou pensando no sangue de seu filho, gritou por ajuda, gritou pois precisava gritar.
Assim que aqueles gritos de puro horror e desespero atingiram os ouvidos sensíveis do pai, um policial que para sempre carregaria a culpa de não ter protegido sua família, ele despertou de imediato. Enquanto Bartolomeu, por conta de seu cansaço pela noite mágica, apenas se remexia na cama.
Correu pelas escadas pulando por cima do corrimão e caindo direto no começo da sala, já vistoriando o perímetro à procura de um alvo para sua arma, mas encontrou apenas uma mulher frágil e destroçada em prantos no chão ao canto da sala, balançando como uma criança amedrontada.
Quando Bernardo tocou sua amada, a reação dela foi gritar, um grito em prantos como só aqueles que conhecem a morte de perto entendem… o grito que acordou seu filho de sua noite mágica.
Ele a confortou com todo seu amor mas logo foi tomado pela racionalidade que tanto havia adquirido nos seus anos de profissão e sussurrou:
Pegue isso — Entregando sua arma — Vou ligar para a equipe e verificar o perímetro e nosso filho fique atenta a qualquer barulho. Te amo.
Pegou seu celular e enquanto se punha ao corredor ligou para um de seus colegas e reportou tudo o que conseguiu capturar aquela cena bizarra e desligou se posicionando com cautela para subir os degraus que pulou poucos minutos antes.
Então ouviu um som familiar, os passos curtos e rápidos de seu filho, quando o viu verificou rapidamente se o menino estava correndo de alguém e quando entendeu que ele estava às pressas para socorrer sua mãe teve segundos para traçar um plano para que seu amado menininho não presenciasse aquela cena demoníaca dentro de seu lar, um lugar que deveria ser seguro.
Menos de 5 minutos depois os policiais já estavam em sua porta, vantagens de ser policial em uma cidade pequena, e coletavam provas de cada canto da sala e checavam a saúde de Amanda.
Até que Bartolomeu, entediado da brincadeira e querendo ver sua mãe, fugiu daquele enorme homem que agora era apenas uma muralha quebrada e entrou para dentro da casa. Seu pai fora logo atrás em desespero para que sua cria não visse a desgraça que ele havia presenciado.
Daqui da minha toca só consegui ouvir os gritos do pequeno Bartolomeu e de sua mamãe.
Escrevo esta carta para mostrar que sempre estive de olho em vocês e gostaria de mostrar a gratidão de terem participado da minha caça aos ovos.
E podem ter certeza que levarei o menininho para uma caça especial, não importa onde vocês o escondam de mim.
Ass. O Coelho.








